Um olhar além das telas: exposição do CIA/UFPB dá protagonismo a alunos assistidos pelo Comitê

segunda-feira, 31 de agosto de 2026
atualizado em segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Em alusão ao Mês da Luta da Pessoa com Deficiência, o Comitê de Inclusão e Acessibilidade (CIA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) apresenta o projeto de exposição de artes visuais “Um olhar além das telas”, com curadoria de Suzana Souza da Silva, que reúne obras produzidas por alunos assistidos pelo Comitê.

A exposição nasce como um espaço de expressão, reflexão e protagonismo. Por meio da arte, os estudantes manifestam diferentes experiências, percepções e barreiras relacionadas às questões que fazem parte do cotidiano das pessoas com deficiência ou transtorno. São produções que revelam sentimentos, vivências, relações, desafios e diferentes maneiras de perceber e interpretar o mundo.

O próprio título da exposição propõe uma reflexão: “Um olhar além das telas” é também um convite para olhar para as pessoas para além de sua condição ou deficiência, reconhecendo-as em sua pluralidade, seus talentos, suas histórias e suas potencialidades.

A proposta também amplia esse olhar para uma dimensão que nem sempre recebe a devida atenção: a saúde mental das pessoas com deficiência. As barreiras sociais, o preconceito, o capacitismo, a falta de acessibilidade e as dificuldades de participação podem atravessar diferentes aspectos da vida e também repercutir no bem-estar e na saúde mental.

Dados de um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a partir de informações da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, ajudam a dimensionar essa questão. Entre as pessoas com deficiência intelectual analisadas pela pesquisa, 43,2% relataram pelo menos um transtorno mental, enquanto o índice foi de 13,7% entre as pessoas sem deficiência. O estudo também identificou, entre adultos de até 59 anos, risco cerca de três vezes maior de depressão e maior ocorrência de outros transtornos mentais entre pessoas com deficiência intelectual.

Os dados reforçam a importância de ampliar a discussão sobre a saúde mental das pessoas com deficiência para além do diagnóstico ou da condição em si. É necessário considerar também as barreiras encontradas no cotidiano, o acesso aos serviços, o preconceito e as diferentes formas de exclusão que podem afetar suas experiências.

É nesse contexto que a exposição “Um olhar além das telas” ganha um significado ainda mais amplo. As obras não apresentam uma única narrativa sobre deficiência ou transtorno. Elas revelam diferentes experiências e perspectivas, algumas relacionadas diretamente à neurodivergência, à deficiência, à dor e à saúde mental, enquanto outras expressam afetos, identidades, relações, pertencimento e questões presentes na vida de cada artista.

Nesse sentido, a proposta coloca os alunos assistidos pelo CIA na condição de protagonistas de uma exposição de artes visuais, valorizando seus talentos e suas produções e utilizando a arte como instrumento para estimular novos olhares sobre a deficiência, a neurodivergência, a saúde mental, o pertencimento e a inclusão.

Mais do que apresentar obras, a exposição busca provocar uma reflexão na comunidade acadêmica e na sociedade sobre as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência ou transtorno e sobre a necessidade de transformar a forma como essas pessoas são percebidas e acolhidas.

Assim, “Um olhar além das telas” propõe que a comunidade acadêmica não enxergue a pessoa apenas a partir de sua deficiência ou condição, mas reconheça sua subjetividade, sua criatividade, seus sentimentos, seus talentos e sua capacidade de produzir e transformar o espaço ao seu redor.

A exposição torna-se, portanto, um espaço de visibilidade e escuta, contribuindo para uma cultura mais acolhedora, inclusiva e acessível e para o enfrentamento de práticas capacitistas e de outras formas de preconceito.

Arte como espaço de expressão e reflexão

As obras reunidas na exposição apresentam diferentes técnicas, estilos, temas e experiências. Cada produção possui uma história particular e revela, a partir do olhar de seu autor, aspectos que muitas vezes permanecem invisíveis no cotidiano.

Algumas obras partem diretamente de experiências relacionadas à deficiência, à neurodivergência, à dor ou à saúde mental. Outras abordam sentimentos, relações afetivas, identidade, pertencimento, liberdade e observações sobre a sociedade.

Essa diversidade é parte fundamental da proposta. Ao reunir diferentes perspectivas em um mesmo espaço, “Um olhar além das telas” demonstra que não existe uma única experiência de ser uma pessoa com deficiência ou transtorno, assim como não existe uma única forma de expressar essas vivências.

A arte torna-se, dessa maneira, uma possibilidade de comunicação e construção de novos significados, permitindo que experiências individuais também contribuam para uma reflexão coletiva.

Obras que revelam experiências e diferentes formas de existir:

“A queda” – Ana Gabriela do Vale Gomes

Curso: Artes Visuais

A obra “A queda” aborda os atravessamentos e sentimentos vivenciados pela artista com deficiência múltipla em um mundo capacitista. A obra representa especificamente o sentimento de queda, associado à necessidade de encontrar bases que ofereçam sustentação, mas que nem sempre estão disponíveis.

“Coração de Pássaro” – Ana Gabriela do Vale Gomes

Curso: Artes Visuais

A obra “Coração de Pássaro” representa o encontro da artista com sua própria experiência enquanto pessoa com deficiência. O coração de pássaro, anatomicamente semelhante ao humano, mas caracterizado por seus batimentos acelerados, estabelece uma relação com uma das condições que afetam a artista como pessoa com doença rara. As veias que partem do coração e chegam ao chão simbolizam a conexão com outras pessoas raras e pessoas com deficiência.

“Cabeça de Bagre” – Oliver Ethyleen Almeida Costa

Curso: Artes Visuais – Bacharelado

A gravura “Cabeça de Bagre” faz parte de uma série de trabalhos que analisa o uso do termo como xingamento. A obra nasce de experiências de preconceito, julgamentos e incompreensão vivenciadas pela artista enquanto pessoa trans e autista. As situações relatadas na motivação da obra são transformadas em uma reflexão sobre os efeitos da pressão e dos rótulos impostos por outras pessoas.

“Encaixe” – Alice Rossi Gomes

Curso: Terapia Ocupacional

Em “Encaixe”, a artista utiliza a ideia do quebra-cabeça para representar a complexidade dos seres humanos. A obra questiona a ideia de que pessoas consideradas atípicas seriam indivíduos com alguma “peça errada” por não se enquadrarem nos padrões sociais. Para a artista, a existência de uma peça diferente não diminui a capacidade de uma pessoa: apenas evidencia sua singularidade.

“Espectro e arte” – Alice Rossi Gomes

Curso: Terapia Ocupacional

Produzida durante uma sessão de terapia, “Espectro e arte” aborda a relação da artista com o espectro e com seu hiperfoco em artes visuais. A produção representa uma aproximação com o universo artístico e uma reflexão sobre como, apesar das diferenças em relação às pessoas neurotípicas, é possível produzir, participar e encontrar pertencimento nesse espaço.

“Creep” – Tarcísio Victor Alves Silva

Curso: Comunicação em Mídias Digitais

A obra “Creep” aborda a sensação de ser diferente e de não pertencer aos padrões estabelecidos. A figura representada, um homem com escoliose, expressa por meio de sua postura a dor física e emocional relacionada ao sentimento constante de inadequação. A obra também estabelece uma relação entre essa percepção de não pertencimento e sintomas de depressão.

“Corpo dolorido, Coração remendado, Mente infinita” – Janaína de Fátima de Oliveira Lima Bezerra

Curso: Artes Visuais

Na obra “Corpo dolorido, Coração remendado, Mente infinita”, a autora busca representar sua experiência enquanto pessoa neurodivergente e com dor crônica. A produção expressa a sensação de, em determinados momentos, estar paralisada dentro do próprio corpo, enquanto a mente permanece em constante movimento.

A obra apresenta, assim, uma experiência marcada pelo contraste entre um corpo que sente e impõe limites e uma mente que não para, transformando em expressão artística uma vivência que atravessa o cotidiano da artista.

“Auto-poda” – Kal Yoga

Curso: Mestrado em Artes Visuais

A aquarela “Autopoda” apresenta uma reflexão marcada pela relação da artista consigo mesma, com sua ancestralidade e com a experiência do TDAH. A obra utiliza a metáfora da poda para representar conflitos internos, dúvidas, cobranças e a tentativa de encontrar espaço e pertencimento no próprio corpo.

“Mulher Alegria Chora no Vasto Oceano” – Luisa Maria da Silva Torres

Curso: Licenciatura em Artes Visuais

A obra “Mulher Alegria Chora no Vasto Oceano” nasceu de uma experiência pessoal marcada pelo período da pandemia, por momentos de sofrimento emocional e por dificuldades de expressar em palavras aquilo que a artista sentia. Nesse contexto, a pintura tornou-se uma forma de expressão.

A obra contrapõe diferentes dimensões da identidade da artista: os cabelos volumosos e coloridos representam sua personalidade alegre e criativa, enquanto o momento retratado expressa profunda tristeza. A pintura, assim, transforma em imagem sentimentos que naquele período eram difíceis de verbalizar.

“O circo do cotidiano da busca pela felicidade” – Silvando Bezerra da Silva

Curso: Enfermagem

A obra representa o contraste entre a tristeza profunda e o chamado “sorriso funcional”. O palhaço, com cabelos coloridos e expressão triste, simboliza uma sociedade na qual as pessoas continuam desempenhando suas funções e demonstrando energia mesmo quando enfrentam desmotivação, cansaço e vazio.

Por meio dessa representação, o artista aborda a pressão para aparentar felicidade e a importância de reconhecer e lidar com sentimentos como tristeza e fracasso.

“Charlotte” – Maria Luiza Conceição Martins

Curso: Biomedicina

“Charlotte” foi criada em homenagem ao primeiro ano de vida da cachorrinha de suporte emocional da artista. A obra utiliza as patinhas do animal como carimbo e tinta guache rosa, unindo duas dimensões importantes para a artista: a expressão artística e sua relação afetiva com Charlotte.

“Nascer Sertão” – Maria da Guia Nunes Rufino

Curso: Técnico em Enfermagem

A obra “Nascer Sertão” apresenta como motivação a ideia de nascimento e crescimento associada a uma planta, estabelecendo uma relação entre o processo de nascer e o desenvolvimento da vida.

“O Gato e o Abacate” – Artur Gomes Coelho Silva

Curso: Psicologia

A obra “O Gato e o Abacate” foi criada como uma forma de expressar preocupação e carinho por uma pessoa que estava passando por dificuldades e que, segundo o artista, não tinha apoio.

“Deusa do Pântano” – Laísa Vitória Silva das Flores

Curso: Filosofia

Depois de meses sem desenhar ou pintar, a artista encontrou inspiração em uma obra publicada nas redes sociais. A partir de uma proposta de colaboração, desenvolveu sua própria versão, utilizando a pintura e a criação de um fundo.

A escolha das cores também representa uma forma de romper com a padronização estética percebida pela artista na mídia, destacando sua preferência pelo verde.

“Sem título” – Laísa Vitória Silva das Flores

Curso: Filosofia

“Vampinguim” – Laísa Vitória Silva das Flores

Curso: Filosofia

“Amarelo Banana” – Noberta Doia Guedes

Pós-graduação em Artes Visuais

A obra “Amarelo Banana” propõe uma reflexão sobre a sociedade na era digital. A artista aborda a forma como as pessoas constroem personagens nas redes sociais e apresentam versões de si mesmas que podem ser diferentes de suas atitudes na vida cotidiana.

“Fases da Lua” – Michelle da Silva Bispo

Curso: Psicologia

A obra “Fases da Lua” surgiu do desejo da artista de transformar seu quarto em um ambiente que tivesse maior identificação com ela e no qual pudesse se sentir pertencente. Produzida a partir de telas antigas e tinta, a obra também recupera memórias relacionadas ao sonho de infância de ser astronauta e à simbologia da lua e das estrelas em sua trajetória pessoal.

“Véus de Âmbar” – Letícia da Silva Soares

Curso: Arquitetura e Urbanismo

“Véus de Âmbar” nasceu inicialmente inspirada em um recife de corais, mas o processo criativo foi transformado pela disponibilidade de materiais. A artista optou por trabalhar principalmente com tons de marrom, branco e dourado, dando à obra um aspecto solar e vibrante.

Produzida com arame, pérolas, pedras e correntes de bijuteria, cola e papel celofane, a escultura reúne referências às construções futuristas, ao pôr do sol, às cores dourado, marrom e laranja e à delicadeza das formas femininas. A produção também representa a experimentação da artista com as artes plásticas e a possibilidade de unir experiências anteriores com novos interesses.

“Liberdade” – Beatriz Cardoso Pires Ferreira

Curso: Letras Clássicas (Grego e Latim)

Em “Liberdade”, a artista representa o sentimento de liberdade experimentado quando uma mulher pode estar sozinha, sem a presença de outras pessoas para julgá-la ou pressioná-la. A obra transforma uma experiência subjetiva em uma reflexão sobre autonomia e liberdade.

“Gosta de ouvir histórias?” – Kátia de Sousa Diniz

Curso: Ciências das Religiões

A obra “Gosta de ouvir histórias?” parte das experiências da própria artista, relacionadas às suas dores e aos prazeres de viver consigo mesma e em sociedade. A produção convida, a partir de seu próprio título, à escuta das histórias e experiências que cada pessoa carrega.

“Thiago, meu amiguinho” – Laísa Vitória Silva das Flores

Curso: Filosofia

A obra “Thiago, meu amiguinho” foi criada com uma motivação simples e afetiva: a vontade da artista de presentear um amigo.

Um convite para olhar além das tela

Ao reunir produções de diferentes cursos, técnicas, estilos e experiências, “Um olhar além das telas” busca colocar os alunos assistidos pelo CIA no centro de uma experiência artística, reconhecendo seus talentos e dando visibilidade às suas diferentes formas de expressão.

A exposição também se apresenta como uma oportunidade para que a comunidade acadêmica reflita sobre as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência ou transtorno e sobre a necessidade de transformar os modos de convivência e acolhimento dentro da Universidade.

Entre os resultados esperados pelo projeto estão a sensibilização da comunidade acadêmica para uma mudança cultural no olhar sobre a pessoa com deficiência ou transtorno, a contribuição para a diminuição do capacitismo e do bullying e o fortalecimento da inclusão e da acessibilidade dentro e fora da Universidade.

Nesse sentido, a exposição não pretende apenas mostrar obras. Ela busca provocar perguntas: Como enxergamos as pessoas com deficiência? O que deixamos de perceber quando reduzimos alguém à sua condição? Quais barreiras ainda precisam ser enfrentadas? E o que podemos transformar a partir de novos olhares?

Ao colocar os estudantes como protagonistas, “Um olhar além das telas” reafirma que inclusão também significa garantir espaços de expressão, participação, reconhecimento e pertencimento.

Em alusão ao Mês da Luta da Pessoa com Deficiência, o CIA/UFPB convida a comunidade acadêmica a conhecer essas produções e, principalmente, a olhar para além das telas, das condições e dos estereótipos, reconhecendo em cada pessoa, uma história, uma identidade, um talento e diferentes possibilidades de existir.

Olhar além é incluir. É reconhecer. É dar espaço para que cada pessoa possa ser protagonista da própria história.

Não esqueçam de deixar seu recado ou elogio aos artistas da exposição nos comentários.