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O surto do novo coronavírus (2019-nCoV) e a COVID19

por CIM UFPB publicado 02/03/2020 20h48, última modificação 03/03/2020 06h49
Texto elaborado pelos acadêmicos Lucas Mendes da Cunha de Sousa Ramos, Marcos Vinícius de Araújo Souza Faustino e João Marcos Araújo da Silva e revisado pelo Professor Dr. Gabriel Rodrigues Martins de Freitas.

No início do mês de dezembro do ano de 2019, surgiram na província de Hubei na China, diversos casos de doenças respiratórias com diferentes quadros de gravidade. Investigações preliminares mais aprofundadas demostraram que a doença enfrentada era de cunho viral e causada por uma nova espécie de coronavírus.

Pertencentes Ordem Nidovirales e Família Coronaviridae, os coronavírus recebem esse nome por sua semelhança com uma coroa quando vistos sobre microscopia ótica, como evidenciado na Figura 1.

 

Figura 1 - Fotomicrografias de transmissão eletrônica de  2019-nCoV.

corona

FONTE: NIAID/RML, 2020.

 

Esta família é dividida em quatro grandes gêneros: Alfa-CoV, Beta-CoV, Gama-CoV e Delta-CoV. Sendo somente os dois primeiros gêneros os que infectam humanos.

A característica do genoma desses vírus é ter RNA de fita simples com sentido positivo (ssRNA+), e é esta peculiaridade que os torna muito semelhantes ao sentido do nosso RNA mensageiro (o responsável por levar a sequência genética aos nossos ribossomos para iniciar a síntese proteica). Logo, uma vez que esses vírus se ligam a receptores celulares de células específicas do corpo de humanos, induzindo sua endocitose, se torna  possível liberar seu material genético no citoplasma desta célula que prontamente é lido pelos ribossomos induzindo a síntese de proteínas estruturais e não estruturais que mediarão os processos de transcrição e replicação viral, sem passar por processos de conversão de material genético que outros vírus necessitam, culminando na lise celular e disseminação de novos vírus.

No início deste milênio, entre os anos de 2002 e 2003, uma epidemia de uma espécie de Coronavírus (SARS-CoV), pertencentes a subgênero Sarbecovirus, infectou mais de 8000 pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde. Esta epidemia causou um quadro patológico semelhante ao atual, que na época foi denominado de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Severe Acute Respiratory Syndrome - SARS).

Por volta de 2012, uma nova epidemia ocasionada por outra espécie (MERS-CoV), de um diferente subgênero de coronavírus (Merbecovirus), causou a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Middle East Respiratory Syndrome – MERS). Segundo dados da Organização mundial da saúde (OMS), esta epidemia causou cerca de 2229 casos confirmados desde seu início.

O 2019-nCoV, que vem causando bastante alarde pela magnitude de disseminação do agente etiológico dentro do território chinês e também pelo mundo, desde meados de dezembro de 2019, é o agente viral responsável pela epidemia mundial que está acorrendo em 2020.

Segundo o primeiro reporte de atualização sobre o a situação de epidemia viral de autoria da OMS, publicado em 20 de janeiro de 2020, o número de casos confirmados eram de 282 infectados, apenas no continente asiático. Este número passou para 87.137 casos confirmados no continente asiático, em diversos países europeus, alguns países africanos, da Oceania e Américas, em 01 março de 2020, segundo o quadragésimo segundo reporte de atualização desta mesma organização. Caracterizando um quadro de epidemia global da doença respiratória causada por este agente viral, em uma janela temporal de apenas 41 dias desde sua confirmação, como pode ser visto na Figura 2.

 

Figura 2 – Situação mundial de casos confirmados de COVID 19 em 01 de março de 2020.

FONTE: OMS, 2020.

 

Esta nova espécie de coronavírus, que está ocasionando a epidemia de 2020, acarreta uma doença muito semelhante a SARS, porém com maiores complicações, denominada de COVID19 (do inglês New coronavirus disease).

Dentre os principais sintomas dessa nova doença causada por coronavírus destacam-se:

  • Mialgia e fadiga;
  • Febre;
  • Tosse e irritação na garganta.

Dos quais, alguns casos confirmados, principalmente na China evoluem para complicações como insuficiência respiratória, síndrome da angústia respiratória do adulto, choque séptico, insuficiência renal, coagulação intravascular disseminada e pericardite que levam os pacientes a óbito.

Segundo dados de Guan e colaboradores (2020), as características clínicas da epidemia de COVID19 demostram que 72,3% dos casos confirmados tiveram contato próximo com residentes de Wuhan (cidade do epicentro epidêmico viral na China). Desses casos, a febre é o sintoma que mais é proeminente após a hospitalização, chegando a ser comum em 88,7% dos casos junto da linfocitopenia (diminuição de linfócitos na corrente sanguínea) que é presente em 83,2% dos casos confirmados, sendo esta última um dos testes de confirmação para a COVID19.

O tempo de incubação médio é de 4 dias e a média etária de infectados gira em torno de 47 anos, sendo nos homens mais prevalente a doença, caracterizando  58,1% dos infectados analisados neste estudo.

Os testes diagnósticos para confirmação laboratorial da COVID19 exigem coleta de materiais respiratórios, como o Aspirado de Nasofaringe e Amostras de secreção inferior, como o lavado bronco-alveolar. Uma vez coletados, esses materiais seguem para Institutos credenciados como o Instituto Adolf Lutz e o Instituto Evandro Chagas onde passam por técnicas de RCP (Reação em cadeia da polimerase) que confirmam ou não a presença do vírus.

Até o momento não existe terapia antiviral para o 2019-nCoV, o tratamento é paliativo tratando apenas os sintomas. A OMS cita que existem muitos estudos clínicos que avaliam o impacto de diferentes intervenções como o ritonavir, lopinavir e remdesivir, mas estes não são antivirais específicos para o agente causador da COVID19.

Graças ao Instituto de Pasteur, na França, ocorreu o primeiro sequenciamento do genoma viral do 2019-nCoV, que deu características filogenéticas importantes do novo agente viral que podem posteriormente oferecer informações acerca de desenvolvimento de terapias antivirais específicas para este vírus.

Em estudo de Lu e colaboradores (2020), foi demostrado que o 2019-nCoV apresenta 88% de semelhança com o genoma de outros dois betacoronavírus derivados de morcegos (bat-SL-CoVZC45 e bat-SL-CoVZXC21), sendo mais próximos destas espécies que dos vírus SARS-CoV (79% de semelhança) e MERS-CoV (50% de semelhança). Como fica evidenciado na Figura 3.

 

Figura 3 – Análise filogenética de genomas completos de 2019-nCoV e vírus representativos do gênero Betacoronavirus.

FONTE: LU et al., 2020.

 

Esta informação infere que o 2019-nCoV é uma nova espécie do subgênero Sabercovirus, pertencente ao gênero Betacoronavírus, originado do mesmo ancestral comum que os vírus que infectam morcegos, sendo estes filogeneticamente diferentes do SARS-CoV e do MERS-CoV.

Estudos inferem também um possível alvo celular destes vírus: A enzima conversora da Angiotensina 2 (ECA2), presente nos rins e células alveolares, assim como o SARS-CoV. Porém, essas pesquisas ainda não tem a capacidade de informar com segurança esta informação.

Esta nova espécie de coronavírus, apesar de ser o surto viral mais infeccioso que se tem precedentes na história mundial quando comparada a outras epidemias de diferentes espécies do mesmo vírus, apresenta taxa de letalidade menor. Segundo dados recentes da OMS, a MERS e a SARS apresentam taxa de letalidade de 30% e 10%, respectivamente, contra aproximadamente 3% (2873 infectados mortos) atribuído a COVID19.

Quando comparadas a outras epidemias virais com altas taxas de letalidade, que assolaram o globo nas últimas décadas, como a do vírus EBOLA que chegou a 40%, a nova epidemia apesar de alarmante e notoriamente preocupante, demostra-se menos letal que as demais viroses. Quando comparada a taxa de infecção de outras epidemias, como a de Dengue nas Américas, que aumentou 13% comparada até então a maior epidemia que se tinha notícia, ocorrida em 2015, o total de 2.733.635 no ano de 2019 é bem mais alarmante que a epidemia de coronavírus deste ano.

Estudo recente, de fevereiro de 2020, apresentou uma das maiores, se não a maior, casuística de COVID-19 no importante periódico New England J. of Medicine. Cerca de 1100 pacientes atendidos em hospitais chineses nos proporcionaram um entendimento ainda maior das características clínicas da doença e de seu grau de letalidade. Destes, 5% foram admitidos na UTI, 2,3% foram submetidos a ventilação mecânica e 1,4% faleceram. O período médio de incubação também foi de 4 dias.  Opacidade no pulmão foi uma anormalidade encontrada na tomografia de tórax. Os sintomas mais comuns na admissão foram tosse e febre. Um sinal importante que pode ajudar na suspeita clinica é linfopenia no hemograma de admissão, que estava presente em 83% dos pacientes. Este estudo reforça a demonstração de que a letalidade por COVID-19 é relativamente baixa quando comparada com outros vírus causadores de epidemias. Como já dito previamente, mais de 80% dos casos são assintomáticos ou leves. Essas informações, se divulgadas adequadamente, podem ajudar a diminuir o temor que se instalou com a evolução da doença. Mais importante é todos tomarmos nossas precauções pessoais e profissionais, que deveriam acontecer sempre e não só em épocas de epidemia. Lavar sempre as mãos e usar álcool gel são boas medidas de prevenção, já que o vírus pode se manter vivo por até 9 dias em superfícies inertes (álcool reduz para um minuto em 70% das vezes).

Para notificação de casos ou suspeitas, o Centro de informações estratégicas de vigilância em saúde (CIEVS) é órgão governamental público que atende meio telefônico (0800-644-6645) ou por meio eletrônico (notifica@saude.gov.br).

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