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UFPB é pioneira em ações comunitárias, afirma congresso da Abrasco

Em entrevista, Pedro Cruz recupera tradição da UFPB na Saúde Coletiva
publicado: 16/03/2018 12h23, última modificação: 23/08/2019 20h24
Pedro Cruz é professor da UFPB e coordenador local do congresso

Pedro Cruz é professor da UFPB e coordenador local do congresso

A Universidade Federal da Paraíba  (UFPB) tem uma longa história de construção científica, socialmente referenciada, e tem pavimentado este caminho através da extensão universitária. A UFPB é uma das pioneiras na realização de experiências comunitárias orientadas pelos princípios pedagógicos, éticos, políticos e metodológicos da educação popular.

Por esta trajetória de convivência dos atores acadêmicos com os comunitários, enfrentando e sentindo juntos as particularidades do viver em contextos de exclusão e de vulnerabilidade, a universidade acolherá a oitava edição do Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva  (Abrasco) entre os dias 26 e 30 de setembro, em João Pessoa.

Para saber mais sobre esta trajetória de construção científica, onde os protagonistas não sejam apenas os acadêmicos, e para pensar o desafio, que não é apenas científico, mas é ético, político e epistemológico, de incluir, de forma protagônica, o conhecimento anterior da população nos processos de pesquisa e de ação social, a Abrasco e a Assessoria de Comunicação Social (Ascom) da UFPB conversaram com o presidente da comissão organizadora local, o professor Pedro Cruz, do Departamento de Promoção da Saúde do Centro de Ciências Médicas da UFPB.

Ele é doutor em Educação, pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPB e coordenador do Grupo Temático Educação Popular em Saúde. Além disso, integra a Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco. Confira abaixo:

Abrasco e Ascom/UFPB - Do que trata, exatamente, um encontro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde?

Pedro Cruz – O 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde é um dos principais encontros acadêmicos e científicos da Abrasco.

Historicamente, a área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS) vem se constituindo como aglutinadora de um rico mosaico de grupos de pesquisa e de estudo, de projetos científicos e de extensão, de estratégias inovadoras de ensino, assim bem como de inciativas e processos de ação social, política e comunitária no âmbito da Saúde Coletiva, particularmente no que se refere à interface da saúde com as dimensões e referenciais como a antropologia, a história, a sociologia, a filosofia, a educação, a arte, entre outras.

A área das CSHS coloca em foco as relações sociais, suas dinâmicas, as subjetividades humanas e suas ligações com a sociedade. Do mesmo modo, os processos de determinação social da saúde e suas implicações no cuidado.

Este Congresso constitui um dos mais consolidados espaços de discussão da Saúde Coletiva brasileira, sendo promovido sistematicamente desde os anos de 1990, e caracterizando-se sempre pelo diferencial de buscar acolher iniciativas de análise, de reflexão e de conhecimentos que valorizam a implicação científica em contextos sociais de forma compromissada com a superação dos problemas e com o enfrentamento – ético e científico – a todo e qualquer processo de exclusão social e de desumanização.

Com isso, os Congressos de CSHS sempre constituíram espaços potentes para fortalecimento dessa perspectiva do fazer científico em Saúde Coletiva, assim como no apontamento de questões para contribuição com o aprimoramento das políticas públicas em saúde.

Abrasco e a Ascom/UFPB – Como será colocado o tema central “Igualdade nas diferenças: enfrentamentos na construção compartilhada do bem viver e o SUS”?

Pedro Cruz – Neste 8º Congresso, serão enfocados de modo particular dois elementos centrais para a área de CSHS nos últimos anos: a construção compartilhada do conhecimento e o bem viver.

No que tange à construção compartilhada do conhecimento, pretende-se discutir com as pessoas os caminhos e as potências, assim como os desafios e os obstáculos, para se empreender processos de estudo, de pesquisa e de ação social que sejam orientados pela valorização dos conhecimentos de diferentes atores do campo da saúde – não apenas os pesquisadores, mas também os trabalhadores de saúde, os integrantes de movimentos sociais, as pessoas em seus territórios e os estudantes universitários em processo de formação.

Com isso, mergulhamos em um exigente e potente caminho de construção científica onde os protagonistas não são apenas os acadêmicos, mas também os atores sociais, em um processo no qual o ponto de partida possa ser a realidade social, suas determinações e suas dinâmicas, e o ponto de chegada seja o enfrentamento sistemático das situações de exclusão, de vulnerabilidade, de opressão e de desumanização.

Por sua vez, o bem viver constitui uma perspectiva tecida ao longo de muitas gerações pelos povos andinos e praticada pelos povos indígenas, que implica pensar e implementar modos de existir orientados pela convivência solidária, fraterna e colaborativa com o outro, com a natureza e com os demais seres vivos, bem como envolvendo uma concepção de saúde que pressupõe um viver com plenitude, com dignidade, com felicidade e com o exercício das potencialidades humanas, de suas vocações e de suas diversas expressões.

Além disso, pela relação das pessoas com os seres não humanos, incluindo-se muito além dos seres vivos e da natureza, mas também a fé, as espiritualidades, as dimensões de mistério e de não explicado do viver.

Abrasco e a Ascom/UFPB – Como o encontro se articulará com a conjuntura política atual?

Pedro Cruz – No atual contexto político brasileiro, diversos grupos da sociedade e vários setores governamentais em diferentes gestões públicas vêm pautando e implementando uma lógica ultraliberal que, vinda da dimensão econômica, tem sérios impactos na vida das pessoas e na forma como são tratadas as políticas públicas e os direitos sociais.

No ultraliberalismo, a questão social não apenas é desimportante, como é inexistente na agenda pública, de modo que investimentos em políticas públicas e em equipamentos sociais são vistos como “gastos” que precisam ser cortados em favor do “equilíbrio fiscal”, o que se dá no pano de fundo de uma visão de estado mínimo, no qual se semeia a ideia de um estado desresponsabilizado pelos problemas sociais, pois tão somente regulador das leis impostas pelo mercado e por ênfase liberal do viver, na qual, pela competitividade, “salva-se quem puder” e onde “os fracos não têm vez”.

Já estamos vendo essa faceta em diversos campos da vida pública nacional, seja pelos cortes de recursos nas universidades e nos institutos federais de ensino superior, pelo progressivo desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS); pela redução significativa de políticas para o apoio e a proteção social; pela extinção de políticas, programas e estratégias direcionadas para a emancipação social, humana e política das pessoas.

Desse modo, nos últimos anos, o Brasil vem vivenciando, cada vez mais, o enfraquecimento de políticas sociais de cunho inclusivo, integral, participativo e humanizador. A própria noção de direitos sociais e humanos vem sendo sistematicamente questionada, o que implica concretamente em prejuízos e ameaças à existência de diversas pessoas e grupos sociais que convivem com sérios contextos de exclusão, de vulnerabilidade, de exploração e de desumanização.

Abrasco e a Ascom/UFPB – Como está a programação científica do congresso?

Pedro Cruz – O evento contará com diferentes espaços para debate crítico e reflexivo e para aprendizado com experiências, ideias e formulações de diferentes atores. O Pré-congresso ocorrerá em 26 de setembro e na manhã do dia 27. Nele, ocorrerão oficinas, minicursos, reuniões e outras atividades.

Cumpre destacar que essas atividades e as mesas redondas foram inicialmente propostas por toda a comunidade da Saúde Coletiva em chamada pública. Depois foram avaliadas pela comissão científica do Congresso, que primou por incluir o máximo possível de temas, abordagens, linguagens e perspectivas que pudessem contribuir para o tema do congresso e para a área de CSHS.

Evidentemente desde que cumpridos os critérios da chamada, dentre os quais estava valorizada a interregionalidade na composição do grupo dos proponentes e a participação de diferentes vozes e lugares: integrantes de movimentos sociais, de trabalhadores de saúde, pesquisadores, professores e estudantes da área de saúde.

Durante o congresso, a programação terá 38 mesas-redondas que contemplam uma diversidade significativa de temas, enfoques e perspectivas caros à área e importantes para o atual contexto brasileiro. Além das mesas, teremos dois debates emergentes que aglutinarão todo o público do congresso na perspectiva de trazer à tona as principais dimensões enfocadas pelo tema, com pessoas com trajetória de ações e de produções amplamente reconhecidas.

De modo articulado aos debates emergentes, ocorrerão rodas de conversa para ampliar a possibilidade de diálogos e de reflexões compartilhadas a partir das contribuições dos expositores dos Debates. Em cada dia, serão três rodas que irão valorizar a participação dos diferentes atores do campo da saúde e sua visão acerca dos desafios colocados no atual contexto, em cada tema apontado.

Abrasco e a Ascom/UFPB – Também haverá ato público?

Pedro Cruz – Sim, um espaço muito importante estará no ato público. Desde o 7º congresso, a comissão de CSHS incluiu na grade de programação essa atividade visando abrir espaço para que diferentes atores sociais com protagonismo na saúde pudessem explicitar suas lutas e seus posicionamentos políticos diante de problemáticas e situações-limite vivenciadas pelas pessoas e pelos movimentos sociais organizados.

Tendo sua construção mobilizada por um contexto social e político brasileiro cada vez mais permeado por ameaças aos direitos, às políticas sociais e à democracia na agenda pública do Estado, o ato, centralmente, terá como fio condutor a defesa do SUS e da democracia.

Acreditamos que o espaço central do congresso estará nos Grupos Temáticos (GT), nos quais serão apresentados os relatos de pesquisas e de experiências que foram submetidos pela comunidade científica e social de todo o país e aprovados pela comissão científica.

Contudo, uma marca especial dos GTs será não se pautarem apenas pelas tradicionais apresentações de trabalhos. Há uma recomendação de que cada GT tenha início com um painel de experiências sociais com potência de reflexão e de apontamento de questões no tema, sendo tal painel seguido de comunicações orais com debates e finalmente com uma oficina, na qual serão coletivamente elencadas as principais questões que emergiram nos debates dos GTs, em especial propostas que, naquela temática, contribuam para o campo da CSHS, para o campo do conhecimento no tema do congresso e para as políticas públicas, o processo dos trabalhadores de saúde e a ação dos movimentos sociais.

Abrasco e a Ascom/UFPB – Por que a UFPB como palco deste congresso?

Pedro Cruz – A UFPB tem uma longa história de construção científica de modo socialmente referenciado. Ao longo das últimas décadas, são inúmeros e marcantes os exemplos de professores, de técnicos e de estudantes que se dedicam a não apenas pesquisar, ou de não somente intervir, mas de conviver com a realidade social, com seus protagonistas e com suas dinâmicas exigentes e multifacetadas.

Ou seja, não apenas pesquisar “sobre”, ou atuar “para” a comunidade, mas pesquisar e atuar “com” a comunidade, incluindo os conhecimentos oriundos das experiências de trabalhadores de saúde e de atores do campo social no processo.

Tal característica foi delineada a partir da convivência dos atores acadêmicos com os comunitários, enfrentando e sentindo juntos as particularidades do viver em contextos de exclusão e de vulnerabilidade, criando um vínculo que dá sentido ao compromisso social pela humanização das pessoas.

Essa perspectiva constitui, em verdade, um princípio ético e epistemológico que não é próprio apenas da UFPB, tampouco é característico somente do Brasil. A construção compartilhada do conhecimento constitui perspectiva oriunda de um amplo e antigo movimento de iniciativas e experiências no que se chama preponderantemente de pesquisa participante, como também de denominações outras, com abordagens e metodologias próximas a essa.

Carlos Rodrigues Brandão historiciza de maneira precisa as origens dessa modalidade de fazer pesquisa, indicando que a mesma surge em tempos próximos, mas em diferentes lugares, tendo como base diversificadas práticas sociais, articulando diferentes pressupostos teóricos e caminhos metodológicos.

O caminho pelo qual a UFPB desenvolveu e aprofundou essa tradição se deu preponderantemente pela extensão universitária. A UFPB é uma das pioneiras, em nível nacional, na realização de experiências de extensão universitária orientadas pelos princípios da educação popular, que constitui tanto uma abordagem do campo educacional como uma teoria do conhecimento, cujo sistematizador mais importante é o pernambucano Paulo Freire, referência internacional em pedagogias críticas e em metodologias problematizadoras e emancipadoras no campo da educação.

 

Abrasco e a Ascom/UFPB – Em que medida esse histórico da UFPB contribui para a área de CSHS e para o congresso?

 Pedro Cruz –  Nos últimos anos, a Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva tem orientado suas ações a partir da compreensão de que o espaço das CSHS consiste nessa realidade concreta e em seus diversos, complexos e multifacetados desafios; para mais, que os protagonistas da CSHS, além dos pesquisadores, são as pessoas que convivem, trabalham e lutam cotidianamente nesse contexto.

Nesse percurso, vem se tecendo uma profícua aproximação com protagonistas da comissão e do Grupo Temático de Educação Popular também da associação e de outros coletivos, e muitos bons frutos desse diálogo têm brotado, dentre eles, principalmente, um debate sobre o tema da construção compartilhada do conhecimento na pesquisa e na ação social.

Tal debate vem junto da intencionalidade de enfatizar a centralidade do diálogo crítico, propositivo e transformador da universidade e dos atores do campo acadêmico com os movimentos sociais, as práticas populares e as experiências de ação social e educativa no âmbito comunitário. Valorizar, no processo de produção do conhecimento, os “saberes de experiências feitos”, como dizia Paulo Freire.

Nessa direção, será um destaque especial do evento a homenagem que faremos, na abertura do congresso, à Dona Palmira Lopes, educadora popular e liderança comunitária, que é uma das coordenadoras do Movimento Popular de Saúde da Paraíba, sendo referência do Assentamento Novo Salvador, no município de Jacaraú, no interior da Paraíba.

Desde os anos de 1970 atua em experiências e trabalhos sociais de integração entre os conhecimentos populares e os conhecimentos científicos na construção de processos de cuidado integral em saúde (em especial pela fitoterapia) e em ações de luta por direitos sociais e humanos para os grupos populares.

Nos últimos anos, têm percorrido o país junto com a Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS), defendendo a implementação da Política Nacional de Educação Popular em Saúde no SUS e a integração dos protagonistas das práticas populares e comunitárias de cuidado nos serviços de saúde.

Durante o congresso, lançaremos livro de sua autoria, com a sistematização de suas trajetórias e reflexões. Além disso, o auditório principal do evento será batizado com seu nome: Tenda Palmira Lopes.

Abrasco e a Ascom/UFPB – Faltando pouco mais de um mês, qual a expectativa?

Pedro Cruz – A organização do 8º CBCSHS espera criar contextos propícios ao diálogo de conhecimentos e ao compartilhamento de estudos, de pesquisas e de experiências dedicadas, em várias interfaces e temáticas, para a promoção do bem viver e para a defesa do direito a saúde e o aprimoramento do SUS.

Além disso, à medida em que os encontros humanos são potentes mobilizadores, espera-se também que esse congresso fortaleça a dedicação e o compromisso dos vários atores sociais para continuarem empenhando esforços de estudos, de pesquisas e de trabalhos sociais em CSHS, nos vários contextos – seja nos serviços de saúde, nos movimentos sociais, nas universidades e Centros de Ensino.

Com isso, produzindo, compartilhando e visibilizando conhecimentos, reflexões críticas e apontamentos que contribuam com o debate público e não apenas questionem, mas apontem possibilidades e propostas para a constituição de espaços onde a construção da saúde se dê pela busca incessante e compartilhada do bem viver.

Finalmente, será muito especial discutir tais temáticas no contexto das comemorações dos 40 anos da Abrasco, representando, de modo firme e sistemático, a dedicação e a implicação da associação e de seus protagonistas em uma construção científica e profissional integrada aos exigentes desafios impostos pela realidade e que se dá de modo dialogado com os demais atores sociais que fazem, concretamente, a saúde e suas dinâmicas.

Como dito antes, desde estudantes universitários, até técnicos, trabalhadores e especialmente as pessoas em seus contextos de vida e em seus movimentos sociais na busca por direitos e pelo viver com plenitude, autonomia e felicidade.

Ascom/UFPB