As dissertações de mestrado vinculadas ao ODAN/UFPB-CNPq são apresentadas a seguir, organizadas em ordem cronológica de defesa, da mais antiga à mais recente. Os textos completos estão disponíveis no Repositório Institucional da UFPB. Além disso, os artigos científicos derivados de cada dissertação são apresentados logo após seus respectivos resumos, permitindo ao(à) leitor(a) acompanhar os desdobramentos das pesquisas desenvolvidas.
2026
IZABELE DA SILVA ROCHA – VIOLÊNCIA, DEPRESSÃO E EXCESSO DE PESO EM MULHERES BRASILEIRAS, CONFORME A ORIENTAÇÃO SEXUAL.
Orientador: SAVIO MARCELINO GOMES
Data: 23/02/2026 – Hora: 09:00
O objetivo deste estudo foi verificar a associação entre violência, depressão e excesso de peso (sobrepeso e obesidade) em mulheres de minorias sexuais no Brasil. Trata-se de um estudo transversal com microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) – edição de 2019. Foram incluídas 44.608 mulheres heterossexuais, 326 bissexuais e 394 homossexuais que responderam às entrevistas presenciais realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. A variável dependente foi o estado nutricional. As variáveis independentes foram a depressão e a violência sofrida (psicológica, física e sexual), mensuradas através de autorrelato. Os ajustes foram realizados a partir dos dados das variáveis sociodemográficas. Foram utilizados os testes de Qui-quadrado Rao & Scott e Modelos Lineares Generalizados (GLM) com distribuição logística binomial, empregando a Razão de Chances (OR) e o respectivo IC de 95%, considerando os pesos amostrais da amostragem complexa. Todas as análises foram feitas através da linguagem de programação R, por meio da interface R Studio. Minorias sexuais femininas apresentaram níveis de renda (bissexuais: 22,89%, IC95% 15,5 – 30,2; homossexuais: 22,80%, IC95% 15,8 – 29,7; heterossexuais (12,50% IC95% 11,7 – 13,2) e escolaridade (bissexuais: 39,80%, IC95% 28,7 – 50,8; homossexuais 41,12%, IC95% 34,4 – 50,7; heterossexuais: 23,59%, IC95% 22,5 – 24,6) mais altos em comparação aos seus pares. Além disso, sofreram mais violência (bissexuais: 48,55%, IC95% 40,0 – 57,0; homossexuais 37,64%, IC95% 29,5 – 45,7; heterossexuais: 18,84%, IC95% 18,1 – 19,4) e mais depressão (bissexuais: 24,61%, IC95% 17,4 – 31,8) em comparação às heterossexuais (15,78%, IC95% 15,0 – 16,5). Não houveram diferenças significativas no estado nutricional entre os grupos. As análises multivariadas demonstraram que mulheres heterossexuais com depressão tiveram maior chance de excesso de peso (OR=1,39; IC95%1,131,69; p<0,001), diferente das minorias sexuais (bissexuais: OR=0,32;IC95%0,071,4; p=0,12; homossexuais: OR=1,47; IC95%0,454,8; p=0,51). A experiência das mulheres na exposição a estressores sociais pode variar de acordo com a orientação sexual. As estratégias de saúde pública devem incorporar uma perspectiva interseccional para melhor captar a heterogeneidade nos resultados de saúde das mulheres.
JOERIKA BATISTA CIQUEIRA – INIQUIDADES NA DISTRIBUIÇÃO DE COMÉRCIO VAREJISTA DE ALIMENTOS EM UMA CAPITAL DO NORDESTE BRASILEIRO
Orientadora: MARIANA SOUZA LOPES
Data: 20/02/2026 – Hora: 14:00
O ambiente alimentar é fator determinante das escolhas alimentares e das iniquidades em saúde. A distribuição de estabelecimentos de venda de alimentos saudáveis ou não no território não é aleatória, refletindo e podendo ampliar as desigualdades sociais. O objetivo deste estudo foi mapear as desigualdades socioeconômicas na distribuição do comércio de alimentos no município de João Pessoa-PB. Trata-se de um estudo ecológico. A base dados de estabelecimentos de venda de alimentos foi construída a partir de dados secundários cedidos pela Secretaria de Estado da Fazenda da Paraíba e Prefeitura Municipal de João Pessoa-PB, sendo submetida a auditoria virtual (Google Earth/Street View) e in loco para os quiosques localizados na orla marítima. Os estabelecimentos foram classificados segundo o sistema de classificação Locais-NOVA em fontes de aquisição de: (1) alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários, (2) alimentos processados e (3) alimentos ultraprocessados. As condições socioeconômicas foram avaliadas pelo Índice Socioeconômico do Contexto Geográfico (GeoSES) e cinco de suas dimensões (Educação, Renda, Pobreza, Privação Material e Mobilidade). A associação entre o número de estabelecimentos e os indicadores socioeconômicos foi analisada por mapas temáticos, Coeficiente de Correlação de Pearson e modelos de Regressão Binomial Negativa. Mapeou-se 5.087 estabelecimentos. Os resultados revelaram que a disponibilidade de estabelecimentos de venda de alimentos saudáveis é correlacionada com as características socioeconômicos da área, apresentando elevada correlação positiva com o índice GeoSES (r=0,85; p<0,001), Renda (r=0,85; p<0,001) e Educação (r=0,83; p<0,001). Áreas com maior GeoSES apresentam, em média, mais que o dobro de estabelecimentos que comercializam alimentos in natura (RT=2,05; IC95%: 1,48 2,84; p<0,01) em comparação às áreas com menores pontuações no índice. Em contrapartida, a oferta de alimentos ultraprocessados apresentou distribuição homogênea no território, ocorrendo de forma independente das características de nível socioeconômico da área (p>0,05). Conclui-se que o acesso à estabelecimento de venda de alimentos que configura a base da alimentação saudável em João Pessoa-PB é um privilégio geográfico das áreas abastadas, enquanto a disponibilidade de estabelecimentos de venda de alimentos ultraprocessados é onipresente da cidade e independente da vulnerabilidade da área. Esse cenário de iniquidade territorial reforça a necessidade de políticas públicas de abastecimento focadas na equidade e no fortalecimento de equipamentos públicos de Segurança Alimentar e Nutricional para garantir o Direito Humano à Alimentação Adequada em áreas de maior vulnerabilidade.
2025
FERNANDO PAIVA BRANDINI – INSEGURANÇA ALIMENTAR: REPERCUSSÃO SOBRE EVOLUÇÃO DO CONSUMO DE FRUTAS E HORTALIÇAS DE USUÁRIOS DE PROGRAMA PÚBLICO DE PROMOÇÃO DA SAÚDE
Orientadora: MARIANA SOUZA LOPES
Data: 27/06/2025 – Hora: 14:00
A Insegurança Alimentar (IA) envolve diversos fatores socioeconômicos, como concentração de renda e dificuldades no acesso a alimentos, e atinge principalmente famílias em territórios vulneráveis, nos quais também são caracterizados pelo pior acesso e disponibilidade de alimentos adequados, saudáveis e acessíveis economicamente. No que tange o consumo de alimentos in natura como as frutas e hortaliças (FH), é notório que apesar de constituírem a base para uma alimentação saudável para as recomendações ao redor do mundo seu consumo é reduzido entre indivíduos residentes em domicílios em IA. No Brasil, intervenções em saúde como o Programa Academia da Saúde (PAS) são necessárias para a promoção da saúde e da alimentação adequada e saudável (PAAS), e se apresentam como um importante aliado para o incentivo ao consumo de FH entre pessoas e famílias em vulnerabilidade, porém pouco se sabe se a IA vivenciada pela família de indivíduos usuários do PAS os impede de promover mudanças no consumo de FH mesmo após intervenções nutricionais. Assim, o objetivo desta dissertação é avaliar a associação entre IA do domicílio na evolução do consumo de FH entre participantes de um programa público de promoção à saúde de Belo Horizonte-Minas Gerais, Brasil após intervenção nutricional. Trata-se de um estudo longitudinal realizado com dados da linha de base (2014-2015) e reavaliações em 12, 36 e 48 meses de um Ensaio Comunitário Controlado e Randomizado realizado em unidades do PAS em Belo Horizonte- MG. A intervenção nutricional conduzida foi pautada em metodologias educativas problematizadoras e no Modelo Transteórico (MT). O consumo diário de FH foi investigado pela frequência de consumo de FV seguido da conversão do número de colheres de sopa de FH consumidos em gramas nos tempos avaliados, e o consumo foi avaliado através da divisão por quartis. A amostra foi dividida de acordo com a presença ou grau de IA de acordo bom a classificação da pontuação da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (=0 ou >1 ponto).Para variáveis categóricas foi realizado o teste estatístico Qui Quadrado de Person para variáveis categóricas e o teste T de Student para as contínuas. Para mensurar o efeito da intervenção no consumo de FH foi realizado o Modelo Diferenças em Diferenças (DiD), para estimar a diferença da gramatura do consumo entre todos os tempos e linha de base. Dois modelos foram construídos um não ajustado e outro ajustado por sexo, anos de estudo e renda per capta. Do total de participantes 3.279 indivíduos, 36,2% se encontravam em situação de IA, e consumiram menores quantidades de FV em relação aos que estão em situação de segurança (120,0 g vs. 160,0 g; p<0,001). Aos 12 meses de intervenção foi possível identificar no 2º quartil um aumento do consumo de FV no grupo em IA (GC: 306,2 a328,0 gramas; GI: 304,4 a 355,1gramas), DiD de 28,8 (p = 0,047). No 4º quartil, indivíduos em AS houve um declínio aos 12 meses (GC: 627.438 a 460.124 gramas; GI: 644.529 a 436.581 gramas, resultando em um DiD de -23,3; p=0,017). Conclusão: O efeito da intervenção variou entre os quartis de consumo, e os resultados foram semelhantes entre os grupos, independente da presença da IA no domicílio, o que revela a influência de fatores que se sobrepõem ao alcance da intervenção, como o ambiente alimentar, barreiras socioeconômicas e características estruturais do território em que foi realizado o estudo. A vulnerabilidade social, demanda de elaboração de políticas públicas mais abrangentes, que integrem ações intersetoriais que mitiguem a IA e melhore o acesso a alimentos saudáveis, são essenciais para que intervenções desse tipo sejam mais efetivas.
CECÍLIA FURTADO CRAVEIRO -DISPARIDADES NO AMBIENTE ALIMENTAR DO CONSUMIDOR DE UMA METRÓPOLE BRASILEIRA
Orientadora: MARIANA SOUZA LOPES Data: 24/02/2025 – Hora: 09:00
O ambiente alimentar do consumidor se relaciona à disponibilidade, qualidade e variedade de alimentos disponíveis para a compra em uma determinada área. Esses fatores podem evidenciar disparidades em saúde presentes em comunidades vulneráveis. O objetivo do presente trabalho foi verificar a disponibilidade, diversidade, variedade e qualidade de alimentos in natura e ultraprocessados em lojas localizadas em territórios com diferentes níveis de vulnerabilidade da saúde em uma metrópole brasileira. Este estudo transversal usou dados provenientes de um estudo prévio realizado na cidade de Belo Horizonte. A coleta de dados se deu através de auditoria nos estabelecimentos comercializadores de alimentos presentes na área, utilizando-se uma versão adaptada do instrumento ESAO-s, previamente validado para o contexto brasileiro. Coletou-se dados sobre as 10 frutas e 10 hortaliças mais consumidas pela população, além dos 5 alimentos ultraprocessados mais consumidos. A vulnerabilidade do território foi medida através do Índice de Vulnerabilidade da Saúde (classificada em baixa, média e alta/muito alta). Foram realizadas análises descritivas e modelos de regressão, ajustados pela população da área. 248 lojas foram auditadas, entre supermercados, lojas especializadas em frutas e hortaliças e lojas locais. Áreas de baixo IVS possuíam maior prevalência de lojas com variedade adequada de frutas (34,4% vs. 2,2%; valor-p < 0,001) e hortaliças (38,7% vs. 10,9%; valor-p < 0,001) e melhor qualidade, quando comparadas às áreas de médio e alto/muito alto IVS. Supermercados em áreas de baixo IVS tinham quase o dobro da prevalência de adequação de variedade de vegetais quando comparados aos em áreas de alto/muito IVS (65.2% vs. 33.3%, valor-p = 0.005). Após ajuste pela população, áreas de maior IVS possuíam menor chance de apresentarem lojas com variedade adequada de frutas, comparadas às de baixo IVS (RC = 0.06; IC 95% = 0.01 – 0.44; valor-p = 0.006). Concluímos que, em Belo Horizonte, as disparidades no ambiente alimentar do consumidor podem levar à dificuldades de acesso à alimentos saudáveis, especialmente à populações mais vulneráveis. Ações urgentes devem ser tomadas no ambiente alimentar, a partir de intervenções políticas e sistemáticas.
Última atualização: quinta-feira, 9 de abril de 2026