Por Trás dos Dados: Diários do Observatório – Cap. 1 Entre Planilhas e Ruas Virtuais

quinta-feira, 16 de abril de 2026
atualizado em quinta-feira, 16 de abril de 2026

Por Wellington Mateus Rodrigues Pinheiro | Membro do Observatório das Desigualdades em Alimentação e Nutrição (ODAN)

Se tem uma coisa que me define, é a mania de querer automatizar tudo o que vejo pela frente. Quando entrei no curso de Nutrição da UFPB, meus olhos brilhavam para a gestão de Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN). Eu sonhava com fichas técnicas inteligentes e planilhas de estoque que funcionassem sozinhas. Mas, no fundo, a saúde coletiva sempre deu um “cutucão” no meu coração: o desafio de levar nutrição para quem mais precisa era grande demais para ser ignorado.

O “Clique” do Destino e a Magia do QGIS

O meu encontro com o ODAN/UFPB-CNPq foi um daqueles acasos perfeitos. Entre dezembro de 2023 e maio de 2024, enquanto cursava UAN, eu também assistia às aulas da Profa. Dra. Mariana Souza Lopes. Minhas convicções entraram em curto-circuito! Foi ali que descobri que ela era a “mestra” do Ambiente Alimentar na universidade.

Quando vi aqueles mapas coloridos gerados por um software chamado QGIS — que transformavam dados frios em um roteiro real para combater a fome — algo mudou.

“É isso! Juntei as peças do quebra-cabeça.”

Mandei um e-mail empolgadíssimo para a profa. Mariana, pronto para mudar o mundo no dia seguinte. Recebi um “freio de arrumação”: ainda não havia dados de João Pessoa-PB e ela me sugeriu esperar até o próximo processo seletivo do PIBIC.

Isso me abalou? Eu nem percebi. Fiquei tão obcecado pelo tema que meu histórico de navegação só tinha termos como “Pântanos Alimentares” e “Desertos Alimentares”. Como eu ainda era um aspirante a pesquisador, minha “metodologia científica” se resumia a maratonar buscas no Google Acadêmico.

15 Mil Endereços e Uma Realidade Paralela

Em setembro de 2024, a vaga no ODAN/UFPB-CNPq finalmente veio. E chegou na hora certa: era o momento de construir o banco de dados de João Pessoa. Minha cidade, minha gente e minha nova área de pesquisa favorita, tudo junto.

Aí começou a minha jornada épica pelas “ruas virtuais”. Foram mais de 15 mil endereços auditados pelo Google Street View. Eu passei a viver em uma realidade paralela, “caminhando” pelos bairros nos momentos mais inusitados:

  • Enquanto assistia a jogos de futebol;
  • Ouvindo música nas alturas;
  • Com o gato da minha irmã passando por cima dos meus pés;
  • Poucos dias após minha sobrinha nascer;
  • Enquanto a família almoçava;
  • Até mesmo enquanto cuidava da minha avó.

Meus amigos de fora do Observatório achavam que eu tinha enlouquecido. Eu já sabia de cor os nomes de praças, becos e avenidas onde nunca havia pisado fisicamente. Ouvi de tudo, mas a melhor pergunta sempre era: “Wellington, tu tá fazendo pesquisa ou tá jogando videogame?”

O Retrato de João Pessoa: Do Cômico ao Revoltante

De certa forma, as ruas de João Pessoa eram o meu cenário. E no Street View, a gente encontra absolutamente de tudo.

Passei por situações inusitadas, como “visitar” o folclórico Bar dos Cornos, mas também encarei cenas profundamente revoltantes. Lembro-me claramente da Rua Fernando Walter de Oliveira da Silva, no Padre Zé, onde um cano de esgoto cortava as casas ao meio. Ali, a ficha caía com peso: cada clique no mouse era um passo real em direção a entender a insegurança alimentar da nossa cidade.

Quando os mapas finalmente ficaram prontos, ver a reação das pessoas foi impagável. O público olhava para os nossos achados com surpresa e revolta, mas sempre com um fio de esperança, comentando que aquilo era uma ferramenta fundamental para João Pessoa.


Muito Além da Automação

Hoje, olhando para trás, vejo que o Observatório me deu muito mais que uma oportunidade na iniciação científica. Me deu disciplina (tive que aprender a amar ler e-mails e cumprir prazos!) e me deu uma família acadêmica. Sou imensamente grato à profa. Mariana, ao Prof. Sávio e aos meus colegas. Vocês são o tipo raro de gente que trabalha com uma seriedade absurda, mas não esquece de rir no processo.

Tenho o sentimento de que minha intenção original foi cumprida. Eu queria informatizar a nutrição, mas acabei fazendo algo muito maior: usei a tecnologia para dar rosto e mapa à justiça social. Nossas pesquisas ainda vão ressoar por muito tempo na história de João Pessoa e, principalmente, na vida daqueles que mais precisam.