Por Trás dos Dados: Diários do Observatório – Cap. 2 Entre Prazos e Afeto

segunda-feira, 4 de maio de 2026
atualizado em segunda-feira, 4 de maio de 2026

Nutricionista e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Nutrição (PPGCN/UFPB), Bruna Farias compartilha os desafios, as dores e as vitórias de conciliar a maternidade com a ciência no Brasil.

A trajetória acadêmica é, por natureza, um caminho de exigência rigorosa. No entanto, quando a figura da pesquisadora se cruza com a da mãe, os desafios estruturais da universidade brasileira se tornam evidentes. É neste cenário de dupla jornada que se constrói a história de Bruna Farias, doutorando do PPGCN e integrante do Observatório de Desigualdades em Alimentação e Nutrição (ODAN/UFPB).

Em um relato marcado pela vulnerabilidade e pela força, Bruna abre as portas da sua rotina para mostrar que a pesquisa também se faz com resiliência, rede de apoio e, sobretudo, afeto.

O Renascimento no Luto e a Pausa Necessária

O sonho da maternidade acompanhava Bruna desde os tempos de graduação. Contudo, a concretização desse desejo chegou no momento mais difícil de sua vida: a confirmação da gestação ocorreu apenas uma semana após o falecimento de seu pai, a quem ela descreve como “herói e melhor amigo”.

“Em meio ao luto, a vida se fez presente. Heitor chegou e, com ele, eu também renasci como mulher, como mãe e como filha. A maternidade nos atravessa de forma intensa, nos despe de vaidades e nos reconstrói a partir de um amor e de um cuidado que ressignificam a própria existência”, relembra a pesquisadora.

Bruna dedicou quatro anos de forma integral aos cuidados do filho e da casa. Uma escolha permeada de amor, mas que cobrou o seu preço. O adoecimento mental bateu à porta quando a anulação profissional se encontrou com a sobrecarga invisível do cuidado diário. Foi o sinal de alerta para buscar terapia, reorganizar a vida e iniciar seu caminho de retorno aos estudos.

A Idade era o medo, mas virou a solução

O retorno à vida profissional não foi isento de medos. O edital do mestrado despertou inseguranças profundas: “Será que ainda sou capaz? Não estou velha demais?”. Impulsionada por sua psicóloga, Bruna prestou a seleção. O destino reservou uma ironia simbólica para aquele momento: ao empatar na disputa pela última vaga, o critério de desempate utilizado foi justamente a idade. Ser mais velha lhe garantiu a aprovação.

“De forma quase simbólica, foi justamente aquilo que me gerava insegurança que me abriu a porta. Foi assim que comecei minha trajetória na pós-graduação.” reflete.

A maratona entre dois estados

Hoje no doutorado, a rotina de Bruna é um malabarismo logístico. Residindo em Natal (RN), as viagens para João Pessoa (PB) são frequentes. Sua rotina envolve o trajeto interestadual, as demandas acadêmicas e as responsabilidades como mãe de um menino atleta.

“Mesmo quando estou em casa, as demandas se entrelaçam: organizar para ir à escola, dar conta do doutorado, pausar para o almoço, buscar Heitor, retomar o trabalho, organizar sua ida ao treino, participar de reuniões, cuidar da casa e auxiliar nas tarefas escolares. No fim da noite e ao final da semana, a exaustão chega.”

Para dar conta, ela destaca o papel fundamental de sua rede de apoio, que inclui as amigas nas logísticas com o filho e a parceria do esposo, que exerce a paternidade de maneira ativa e presente. Ainda assim, Bruna pontua a desigualdade estrutural: “A maternidade ainda impõe às mulheres um preço emocional, físico e profissional que a paternidade raramente exige dos homens na mesma medida.”

A importância de uma orientação empática

Dentro da universidade, o acolhimento institucional e humano fez toda a diferença. Bruna destaca o papel de sua orientadora, a professora Mariana Lopes, bem como do seu grupo de pesquisa no ODAN.

“A vida acadêmica me presenteou com uma das pessoas mais especiais que já conheci: minha orientadora, Mariana Souza Lopes. Ela me ensina, acredita no meu potencial e me impulsiona a voos mais altos, sempre com empatia e sensibilidade ao meu contexto familiar. Além das trocas, parcerias e muito estudo com colegas tão dedicados do ODAN, seguimos crescendo coletivamente.”

Um chamado por mudanças institucionais

Apesar de não cogitar a desistência e de acreditar na educação como força transformadora, Bruna deixa um alerta claro: a estrutura acadêmica atual ainda precisa evoluir muito para acolher a maternidade.

A pesquisadora reivindica políticas institucionais e ações concretas que viabilizem a permanência de mães na ciência. Encerrando sua reflexão, ela evoca Simone de Beauvoir — “Não se nasce mulher: torna-se” — para definir seu momento atual.

“Ser mulher, nesse contexto, é também um ato de resistência. E é por isso que sigo lutando: para que as próximas gerações tenham mais oportunidades, sejam devidamente valorizadas e possam trilhar caminhos mais leves, mais justos e mais humanos.”