Hipersensibilidade auditiva no autismo

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Muitas pessoas autistas percebem os sons de forma diferente. Enquanto alguns ruídos passam despercebidos para a maioria das pessoas, eles podem causar grande desconforto, estresse ou até dor em pessoas com hipersensibilidade auditiva.

A hipersensibilidade auditiva é uma característica comum no autismo. Ela faz com que determinados sons sejam percebidos como excessivamente intensos ou desagradáveis, mesmo quando estão em volumes considerados normais.

A hipersensibilidade auditiva pode se manifestar de três formas principais:

Hiperacusia: ocorre em pessoas com audição normal que apresentam sensibilidade aumentada a sons de baixa ou moderada intensidade, independentemente da frequência. Essa condição está relacionada a alterações no processamento central dos sons e costuma provocar sensação de desconforto ou dor diante de estímulos sonoros habitualmente tolerados pela maioria das pessoas.

Fonofobia: caracteriza-se pela aversão, desconforto ou dor provocado por sons específicos em razão do significado ou da associação que possuem para a pessoa. Nesses casos, sons considerados agradáveis podem ser tolerados mesmo em intensidades elevadas. A fonofobia não decorre de alteração auditiva, mas do aumento das conexões entre os sistemas auditivo e límbico, responsável pelas respostas emocionais.

Recrutamento: está associado à perda auditiva sensorioneural periférica. Ocorre em razão da redução dos elementos sensoriais da orelha interna, fazendo com que determinados sons sejam percebidos de forma abruptamente intensa à medida que sua intensidade aumenta.

Como isso acontece?

O cérebro processa as informações sensoriais de maneira diferente em muitas pessoas autistas. Por isso, a reação aos sons pode variar bastante.

Em alguns momentos, a pessoa pode parecer não perceber determinados estímulos. Em outros, pode reagir de forma intensa a sons específicos. Essa diferença faz parte do processamento sensorial atípico frequentemente associado ao autismo.

Quais sons podem causar desconforto?

Os sons que provocam incômodo variam de pessoa para pessoa. Entre os exemplos mais comuns estão:

  • fogos de artifício;
  • alarmes;
  • buzinas;
  • sirenes;
  • sons repentinos ou imprevisíveis;
  • ambientes com muitas pessoas falando ao mesmo tempo.

Em alguns casos, o desconforto está relacionado ao volume do som. Em outros, depende do significado que aquele som tem para a pessoa ou das emoções que ele desperta.

Como a pessoa pode reagir?

A hipersensibilidade auditiva não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas autistas. Algumas reações possíveis incluem:

  • cobrir os ouvidos;
  • afastar-se do local;
  • demonstrar irritação ou ansiedade;
  • buscar ambientes silenciosos;
  • apresentar dificuldade de concentração;
  • sofrer sobrecarga sensorial (sensory overload).

Essas reações não representam falta de educação, exagero ou má vontade. Elas podem ser respostas legítimas a um estímulo que o cérebro está percebendo como excessivo.

O que a ciência já sabe?

Pesquisas mostram que muitas pessoas autistas apresentam audição normal nos exames tradicionais. Isso significa que o desconforto não costuma estar relacionado à capacidade de ouvir, mas à forma como o cérebro processa os sons.

Os estudos também indicam que as respostas aos estímulos sonoros podem envolver diferentes áreas cerebrais relacionadas à atenção, às emoções, à memória e ao processamento das informações sensoriais.

Por esse motivo, a hipersensibilidade auditiva é considerada uma questão complexa, que vai além do funcionamento dos ouvidos. Além do desconforto imediato, estudos mostram que a exposição contínua ao ruído pode afetar a saúde física, mental e cognitiva, especialmente em pessoas mais vulneráveis aos estímulos sonoros.

Algumas consequências da exposição ao ruído

  • Déficits cognitivos, com redução da aprendizagem e do desempenho.
  • Maior frequência de demência.
  • Estresse oxidativo.
  • Disfunção vascular.
  • Desequilíbrio do sistema nervoso autônomo.
  • Alterações metabólicas.
  • Aumento de fatores de risco cardiovascular, como hipertensão arterial e diabetes.
  • Progressão da aterosclerose.
  • Maior ocorrência de eventos cardiovasculares.
  • Prejuízos cognitivos ao longo da vida.
  • Redução da atenção.
  • Prejuízo da memória.
  • Dificuldades na tomada de decisões.
  • Dificuldades de planejamento.
  • Prejuízo do raciocínio.
  • Alterações do julgamento.
  • Prejuízo da percepção e da compreensão.
  • Alterações da linguagem.
  • Prejuízo das funções visuoespaciais.
  • Dificuldade de aprendizagem.
  • Queda do desempenho escolar e profissional.
  • Distúrbios do sono.
  • Redução da capacidade cognitiva em adultos.
  • Estresse com aumento de cortisol e adrenalina.
  • Redução da sensação de controle sobre o ambiente.
  • Redução da autoeficácia.
  • Sintomas depressivos.
  • Aumento da ansiedade.
  • Comprometimento cognitivo em adultos acima de 45 anos.
  • Maior risco de comprometimento cognitivo leve.
  • Maior risco de doença de Alzheimer.
  • Piora do desempenho cognitivo global.
  • Redução da velocidade perceptiva.
  • Declínio cognitivo indireto associado a alterações vasculares e à saúde mental.
  • Maior risco de demência.
  • Piora da função cognitiva associada à exposição crônica ao ruído ambiental.
  • Impactos mais intensos em fumantes e ex-fumantes.
  • Maior ocorrência de sobrepeso e obesidade.
  • Pré-eclâmpsia.
  • Hipertensão induzida pela gravidez.

Os estudos científicos ajudam a compreender os efeitos do ruído sobre a saúde. Nos relatos a seguir, integrantes do Coletivo Autista da UFPB descrevem como a hipersensibilidade auditiva afeta sua rotina acadêmica, seus deslocamentos e sua participação na vida universitária.

Vivências de estudantes autistas da UFPB

Os relatos de integrantes do Coletivo Autista da UFPB destacam que a hipersensibilidade auditiva produz impactos significativos na vida acadêmica, na mobilidade e no bem-estar físico e emocional.

Um estudante relata que a hipersensibilidade auditiva é o aspecto do Transtorno do Processamento Sensorial (TPS) que mais lhe causa sofrimento, especialmente durante os deslocamentos diários em transporte público e nas atividades da universidade. Ele afirma que apenas após iniciar acompanhamento em Terapia Ocupacional passou a compreender suas necessidades sensoriais e a utilizar estratégias de regulação externa, como  usar protetores auditivos, máscara de repouso, boné e guarda-chuva para reduzir estímulos ambientais. Segundo seu relato, “antes da terapia, eu sequer sabia que precisava desses recursos” e, atualmente, “não consigo imaginar minha rotina sem eles”.

O estudante também informa que apresenta alexitimia interoceptiva, condição que dificulta reconhecer e nomear sensações corporais e estados internos. Em razão disso, frequentemente experimentava sofrimento sem conseguir compreender sua origem.

No ambiente universitário, descreve exposição constante a fontes de ruído, como trânsito interno, obras, movimentação de cadeiras e conversas paralelas em sala de aula. Relata que o Restaurante Universitário da UFPB representa um dos ambientes mais desafiadores, pois o nível de ruído pode tornar inviável sua permanência no local, mesmo com o uso simultâneo de protetor auditivo e abafador. Em diversas ocasiões, precisou interromper as refeições para evitar uma sobrecarga sensorial mais intensa.

Segundo o relato, a exposição prolongada a ruídos pode desencadear estados de exaustão extrema, com necessidade de permanecer acamado por vários dias e impossibilidade de frequentar as aulas. Como consequência, acumula faltas e enfrenta dificuldades para que sua condição seja compreendida no contexto acadêmico. Por isso, defende maior conscientização sobre os efeitos do TPS na trajetória universitária de estudantes neurodivergentes, ressaltando que “nem sempre as dificuldades são visíveis, mas seus efeitos podem ser profundos e incapacitantes”.

Outro relato de integrante do Coletivo Autista da UFPB evidencia os desafios enfrentados antes do diagnóstico e do acesso a informações sobre neurodivergência. A estudante afirma que “era uma menina pobre sem diagnóstico e sem qualquer tipo de informação”, razão pela qual desconhecia tanto sua sensibilidade auditiva quanto a existência de recursos de proteção sonora. Na infância e adolescência, desenvolveu estratégias próprias para lidar com a sobrecarga sensorial, utilizando principalmente movimentos repetitivos e vocalizações como forma de autorregulação. Segundo descreve, “eu ia desenvolvendo técnicas de sobrevivência” e “criando contextos repetitivos para tentar diminuir um pouco o que sentia”.

O relato também demonstra que, mesmo após o diagnóstico, persistem desafios relacionados à rigidez cognitiva. Ao narrar uma experiência recente, relata que conseguiu utilizar o abafador de ruído em um ônibus com pessoas falando muito alto, mas permaneceu preocupada com a possibilidade de estar causando constrangimento. Destaca ainda que sua sensibilidade auditiva apresenta características específicas, envolvendo, entre outros estímulos, sons metálicos, atrito de pedras e vozes elevadas.

Por outro lado, um relato de integrante do Coletivo Autista da UFPB registrou experiência positiva de inclusão e acolhimento na universidade. Em um curso de graduação da UFPB, a adoção do aplauso em Libras – realizado por meio do movimento das mãos, sem emissão de ruído – foi prontamente aceita na turma. Além disso, colegas passaram a demonstrar maior atenção aos impactos do ruído, chegando a pedir desculpas quando percebem que falaram ou riram alto e corrigindo comportamentos que geram barulho excessivo. Essas atitudes são descritas como manifestações de respeito, empatia e apoio à permanência de estudantes com hipersensibilidade auditiva no ambiente universitário.

Como tornar os ambientes mais acessíveis?

Pequenas adaptações podem fazer grande diferença para pessoas autistas com hipersensibilidade auditiva:

  • reduzir ruídos desnecessários;
  • avisar previamente sobre sons intensos;
  • disponibilizar espaços tranquilos;
  • respeitar a necessidade de pausas;
  • permitir o uso de abafadores de ruído ou fones de proteção auditiva;
  • evitar julgamentos sobre as reações da pessoa.

A compreensão e o respeito às diferenças sensoriais contribuem para a inclusão e para a participação plena das pessoas autistas na escola, no trabalho, nos serviços públicos e na vida em comunidade.

Respeitar as diferenças sensoriais é promover inclusão

Nem toda pessoa autista apresenta hipersensibilidade auditiva, e a intensidade dessa característica pode variar ao longo da vida. Ainda assim, compreender como os sons podem afetar algumas pessoas é um passo importante para construir ambientes mais acolhedores, acessíveis e respeitosos.

Quando entendemos que uma reação a determinado som pode estar ligada ao modo como o cérebro processa os estímulos, substituímos julgamentos por empatia e criamos condições para que mais pessoas participem da sociedade com autonomia e dignidade.

Fonte

O presente conteúdo foi amplamente elaborado em Linguagem Simples por GRALHA, inteligência artificial criada por Marcia Ditzel Goulart, com base nos relatos de integrantes do Coletivo Autista da UFPB e dos seguintes artigos:

GOMES, E.; PEDROSO, F. S.; WAGNER, M. B. Hipersensibilidade auditiva no transtorno do espectro autístico. Pró-Fono Revista de Atualização Científica, [s. l.], v. 20, n. 4, p. 279–284, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pfono/a/Sdgb8F9HJXp8yNjVsNgp5Qh/?lang=pt. Acesso em: 15 jun. 2026.

MCCULLAGH, M. C. et al. Reduce noise: enhance health equity – an AAN consensus paper. Nursing Outlook, [s. l.], v. 74, n. 3, p. 102760, 2026. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0029655426000837. Acesso em: 15 jun. 2026.

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