Com trabalhos autobiográficos, alunos surdos se formam na UFPB

sexta-feira, 10 de abril de 2026
atualizado em sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) viveu nesta quinta-feira (9) um marco importante da sua história, com a apresentação dos trabalhos de conclusão de curso de dois alunos surdos: Ricardo Douglas Pontes de Medeiros, em Direito, e Renan Pinheiro do Nascimento, em Pedagogia.

Ambos vincularam em seus trabalhos de conclusão de curso as suas histórias de vida às dificuldades enfrentadas desde a infância, com a descoberta da surdez e as privações linguísticas decorrentes da falta de acessibilidade.

A discussão reflete mudanças urgentes nas políticas de inclusão também no ensino superior – temas de ambas as produções –, para evitar que o surdo permaneça alijado dos níveis mais altos da educação formal e, consequentemente, do mercado de trabalho.

Os números apontados pelo IBGE em 2019 desenham um quadro ainda extremamente desigual quanto ao acesso dos surdos às oportunidades de emprego, educação e cidadania, quando apresenta que dois em cada três têm dificuldades para realizar atividades do dia a dia, 15% concluíram o ensino médio, 46% o fundamental e mais de 32% não têm sequer escolaridade.

Renan e Ricardo compõem agora uma elite de apenas 7% com curso superior – e querem ir além, em busca da pós-graduação.

“Isso demonstra a centralidade do ensino do português nas práticas inclusivas, o desconhecimento acerca dos processos de aquisição e desenvolvimento da criança surda e a recorrente violação de um direito linguístico legalmente garantido”, reflete a orientadora do TCC de Renan, a professora Sandra Santiago, doutora em Educação e ela mesma professora de Língua Brasileira de Sinais há 40 anos.

Os fatores contribuem para que a maioria dos sinalizantes enfrente significativa defasagem escolar em comparação com os ouvintes, e que em algum ponto, desde a família até a escola, as estratégias de inclusão ainda sejam insuficientes.

Da descoberta da identidade surda à formação superior

Os TCCs apresentados, de modo geral, provam que as maiores dificuldades não estão na deficiência em si, mas nas barreiras sociais, educacionais e no ouvintismo (o preconceito contra aquele que não ouve). Ao construir as suas identidades surdas, eles passaram a compreender o lugar que ocupam no mundo, transformando as suas histórias em instrumento de resistência.