O Departamento de Artes Cênicas (DAC) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) vem adotando medidas concretas para promover a inclusão, a acessibilidade e a permanência de docente neurodivergente no ambiente de trabalho. As iniciativas foram implementadas em diálogo com professora autista e seguiram todas as recomendações do relatório elaborado pelo Comitê de Inclusão e Acessibilidade (CIA/UFPB). Entre as principais ações, o DAC:
1. Reorganizou a distribuição das atividades de ensino para concentrar as aulas em dois dias da semana e limitar o número de estudantes por turma, conforme orientação técnica voltada à promoção da saúde da docente.
2. Possibilitou a participação da docente nas reuniões departamentais por telefone, garantindo seu acesso às decisões colegiadas em momentos de intenso esgotamento.
3. Criou um grupo oficial de WhatsApp a fim de favorecer a comunicação institucional, facilitando o acesso às informações de maneira mais direta e nítida para todos(as) os(as) docentes.
4. Viabilizou atuação, de forma individual, na Assessoria de Comunicação e de Internacionalização, compatibilizando as atribuições da docente com sua necessidade de autonomia e valorizando suas potencialidades em benefício do desenvolvimento institucional.
5. Disponibilizou outra sala de aula, junto à direção do centro, para evitar impactos adicionais da sobrecarga sensorial em suas atividades de ensino durante os reparos que estão começando a ser realizados na estrutura física do departamento.
6. Aceitou seu desligamento em comissão departamental a fim de resguardá-la de atribuições que exigissem pareceres imediatos, compreendendo a necessidade de previsibilidade e antecipação da docente.
7. Entendeu que uma disciplina optativa presencial poderia ser ofertada como curso de extensão online, reduzindo significativamente sua sobrecarga sensorial e seu nível de esgotamento enquanto a docente continua a contribuir com o departamento.
8. Criou uma Sala de Autorregulação, destinada ao acolhimento e à reestruturação em momentos de necessidade, para todas as pessoas neurodivergentes do departamento.
9. Disponibilizou placas com a mensagem “Estamos em Aula” para serem penduradas nas maçanetas das portas das salas de aula, reduzindo a ocorrência de interrupções inesperadas e contribuindo para um ambiente mais previsível e confortável.

10. Trabalhou para incluir no Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Dança uma disciplina optativa online que poderia ser ministrada pela professora, ampliando as possibilidades de ensino e inovação pedagógica, mas encontrou barreiras institucionais que invalidaram essa proposta.
Essas iniciativas demonstram o compromisso do Departamento de Artes Cênicas com a construção de um ambiente universitário mais acessível, inclusivo e respeitoso à diversidade humana. Ao implementar adaptações individualizadas e valorizar as potencialidades de docente neurodivergente, o DAC fortalece uma cultura institucional baseada na equidade, na acessibilidade e na promoção da saúde, em consonância com os princípios da educação inclusiva e dos direitos das pessoas autistas.
Sem adaptações razoáveis, não há equidade ou inclusão. Esse é o desafio vivido por muitas pessoas autistas que trabalham na educação, da escola básica ao ensino superior. Embora a legislação reconheça o direito à inclusão e às adaptações necessárias para garantir igualdade de oportunidades, a realidade ainda é marcada pelo abandono institucional, pela sobrecarga e pelo preconceito.
Integrante do Coletivo Autista da UFPB resume uma experiência compartilhada por muitas pessoas autistas em diferentes contextos:
“[…] a gente sempre nota os olhares de julgamento como se nós nos aproveitassemos ou somos exigentes demais, como se quiséssemos levar vantagem em tudo.”
Esse tipo de julgamento faz com que pedidos legítimos de adaptação sejam vistos como privilégios, quando, na verdade, são condições essenciais para que pessoas autistas possam viver com saúde e dignidade.
Um professor da rede pública, com 28 anos de carreira, relata que continua apaixonado pela docência, mas enfrenta um ambiente de trabalho que desconsidera suas necessidades.
“Sou professor há vinte e oito anos. Não há nada que goste mais do que dar aulas. Todavia, infelizmente, não bastasse o desprezo quase que integral por parte da sociedade com o saber, ainda sofro com salas de aula superlotadas, que são desprovidas de conforto térmico e acústico. O barulho é tão intenso, que no fim do dia eu só quero não estar mais no mundo. Não há previsibilidade e a impressão que tenho é que tudo é de improviso. As reuniões são caóticas. Todos falam ao mesmo tempo. Uns ouvindo áudio ao celular durante as falas, outros, simplesmente, conversando algo alheio ao que seria uma pretensa pauta. Para completar, existe uma burocracia infindável, que consome muito de minha parca energia. Soma-se a isso, o peso de trabalhar sem recursos para uma “aula diferente”, e ainda sou pressionado a trabalhar no sábado. O que chamam de “Sábado formativo”. Uma pessoa na minha condição precisa de pausas, espaços para se recompor de um mundo que não foi feito para eu existir. Hoje, depois do meu diagnóstico, entendo que não era preguiça, como diziam, é funcionamento neurobiológico atípico. Vivo em desesperança, mas em alguns momentos, me vejo em um mundo inclusivo, onde posso exercer minha profissão, ser funcional e colaborar para mudança de vidas por meio da educação. Entretanto, por ora, só sofro e gasto parte considerável do meu salário com remédios, terapias etc. Que um dia, ainda que distante, eu possa existir e ser feliz.”
Outro professor da rede pública relatou quando uma crise sensorial interrompeu completamente sua aula:
“Aconteceu há mais ou menos um ano, na escola onde eu dou aula, de todos os alunos falarem ao mesmo tempo e isso me deixou bastante mal, minha cabeça começou a girar. Eu tive tontura e fiquei sem condições de continuar a aula, eu tive que encerrar a aula e ir pra casa. Se houvesse na escola onde eu trabalho uma sala de regulação, eu poderia, quem sabe, depois de alguns minutos, depois de algum tempo, me recuperar e voltar pra aula, né? Então, foi um prejuízo coletivo que podia ter sido evitado. Também aconteceu de eu mesmo ter que trocar as lâmpadas da sala de aula onde eu dou aula para uma temperatura mais adequada, no caso uma luz neutra e não exatamente branca, mais próxima do amarelo, para evitar sobrecarga sensorial.”
As adaptações razoáveis não representam benefícios especiais nem privilégios. Elas são instrumentos para garantir igualdade de condições -inclusive no trabalho- e permitir que pessoas autistas desenvolvam plenamente suas atividades sem adoecerem.
Quando gestores ignoram essas necessidades, os prejuízos atingem não apenas profissionais autistas, mas também estudantes, colegas de trabalho e todo o ambiente de ensino.
Promover inclusão significa reconhecer que diferentes formas de funcionamento humano exigem diferentes condições de trabalho. Sem equidade, a inclusão permanece apenas no discurso.
O presente conteúdo foi amplamente elaborado em Linguagem Simples por GRALHA, inteligência artificial criada por Marcia Ditzel Goulart, com reprodução de notícia do Departamento de Artes Cênicas – CCTA/UFPB, com base no relato de integrante do Coletivo Autista da UFPB e de professores do grupo Docentes Autistas.
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