Autismo, espiritualidade e inclusão: quando os espaços religiosos também precisam aprender a acolher

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Reflexão de Kátia Diniz, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da UFPB, aborda a exclusão de pessoas autistas nos espaços religiosos. E relatos do padre Rodrigo Trindade mostram como essas barreiras podem aparecer no cotidiano de uma celebração.

Na sua religião, você percebe a presença de pessoas autistas?

Em cultos, giras, missas e outros espaços de vivência religiosa, você consegue ver pessoas autistas frequentando esses lugares sagrados? E, quando estão presentes, elas conseguem participar, ser compreendidas e vivenciar sua fé de maneira saudável?

A pergunta proposta por Kátia Diniz, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões (PPGCR) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), chama atenção para uma realidade ainda pouco discutida: a exclusão de pessoas autistas dos espaços religiosos.

Para Kátia Diniz, essa exclusão precisa ser compreendida dentro de um processo histórico mais amplo de marginalização de grupos considerados diferentes dos padrões sociais predominantes.

No caso das pessoas autistas, esse processo esteve relacionado a ideias e práticas de confinamento, loucura, isolamento e medicalização. Segundo a pesquisadora, essas marcas ainda podem reverberar nas práticas, no imaginário, nas normas e nas condutas sociais.

Como cultura, sociedade e religião estão intimamente ligadas, os espaços religiosos também podem reproduzir mecanismos de repressão, estigma, preconceito e exclusão.

Quando o espaço religioso não considera a pessoa autista

Para Kátia Diniz, uma das formas de exclusão ocorre quando as práticas religiosas ignoram a existência de pessoas autistas e não consideram suas características.

Celebrações ruidosas ou com iluminação inadequada, por exemplo, podem provocar sobrecarga e crises sensoriais.

A consequência pode ser o afastamento da pessoa autista de sua religião e de sua comunidade religiosa.

Esse afastamento não acontece necessariamente porque ela deixou de ter fé ou porque não deseja participar.

Pode acontecer porque o ambiente não oferece as condições necessárias para que ela consiga permanecer ali.

O relato do padre (pe.) Rodrigo Trindade ajuda a dimensionar essa questão.

Ao falar sobre sua experiência em missas e sobre as crianças autistas que frequentam sua paróquia, ele afirmou:

“Porque eu olho para aquelas crianças e na minha paróquia nós conhecemos algumas que são autistas, e eu penso, eu sei que a missa, assim como o mundo não foi feita para elas, o mundo não foi feito para os autistas. O mundo foi feito para os neurotípicos.”

A experiência relatada pelo Pe. Rodrigo aproxima-se da reflexão de Kátia Diniz sobre ambientes religiosos construídos sem considerar diferentes formas de percepção e interação com o mundo.

O comportamento autista também pode ser incompreendido

Kátia Diniz destaca que as características da neurodivergência nem sempre são compreendidas nos espaços religiosos.

Quando determinado comportamento não corresponde ao que a comunidade espera de uma pessoa durante uma celebração, ele pode ser interpretado apenas como inadequado ou inconveniente.

Pe. Rodrigo contou, por exemplo, que algumas crianças fazem brincadeiras durante as missas.

O padre afirmou que procura não repreendê-las. Ao pensar nessas crianças, lembra que, quando seus familiares o levavam à missa, ele também costumava brincar.

“Se o mundo muitas vezes não compreende, não ajuda, não dá suporte, aqui, na minha missa eu não posso fazer muita coisa, mas também brigar eu não vou, não. E eu digo às mães, aos pais, ‘deixa, se quebrar alguma coisa vocês aumentam o dízimo’. Nunca nenhuma quebrou nada. Eu gosto de usar umas lamparinas, quem quebrou duas lamparinas foi gente adulta.”

O relato evidencia a diferença entre simplesmente exigir que uma pessoa autista se comporte de acordo com determinada expectativa e buscar compreender o que está por trás de seu comportamento.

A barreira também pode estar na comunicação

A exclusão pode aparecer de maneiras menos visíveis.

Durante as missas, Pe. Rodrigo relatou que, quando alguém que o auxilia nas leituras litúrgicas leva um livro de cabeça para baixo, ele não consegue pedir que a pessoa corrija a posição.

Ele tenta fazer a leitura mesmo assim.

“Por isso eu digo que todo autista tem algum algum nível de não verbalidade. Um silêncio involuntário. Se a luz estiver forte demais e o coroinha traz o ritual de cabeça para baixo, eu não consigo dizer para o menino ‘vira esse livro que eu não estou vendo’, eu vou tentar ler de cabeça para baixo.”

O episódio mostra como uma dificuldade de comunicação pode passar despercebida.

Para quem está ao redor, pode parecer que não existe qualquer problema. Para a pessoa autista, porém, pode existir uma barreira que interfere diretamente na participação da atividade.

A necessidade de justificar o diagnóstico

A reflexão de Kátia Diniz também aborda processos de invalidação que atingem pessoas autistas.

Pe. Rodrigo relatou ter recebido o diagnóstico na vida adulta, depois de um processo de investigação que começou com acompanhamento psicológico.

Segundo o padre:

“Depois de dois anos de terapia, a psicóloga suspeitou. Aí encaminhou para o neuropsicólogo. Foram muitos testes, muitas sessões, muito cansaço. […] Depois ele me entrega um laudo que eu não aceitei. Eu fui querendo que não fosse. A gente tem que aguentar que digam que se vai atrás de regalias e benesses, atrás de laudo fácil. Machuca isso.”

O relato mostra uma dimensão da exclusão que não está necessariamente relacionada ao ambiente físico.

A pessoa autista também pode enfrentar a necessidade de provar sua condição para que suas características e necessidades sejam reconhecidas.

Pe. Rodrigo expressou essa experiência ao falar sobre pessoas autistas que precisam de mais suporte:

“Eu chamo de meus irmãos de espectro que precisam de bem mais suporte do que eu e eu olho para eles e penso, é difícil para eles. É difícil para eles. É severo para eles. Mas tem uma coisa que eles não enfrentam. Eles não precisam justificar que são autistas. Eu tenho que justificar, para poder ser aceito.”

“Por trás de quem aparentemente dá conta de tudo existe muita dor”

Kátia Diniz chama atenção para as formas de violência e exclusão que podem atingir pessoas autistas mesmo quando suas características não são imediatamente percebidas.

Pe. Rodrigo também relatou essa experiência.

“Por trás de quem aparentemente dá conta de tudo existe muita dor. A invalidação de um diagnóstico por seus amigos, por seus familiares, por seus irmãos de vocação. Sem contar a invalidação da sociedade.”

Segundo seu relato, até mesmo a utilização de um cordão de identificação pode provocar questionamentos.

Ele contou que, ao solicitar prioridade em uma fila utilizando o cordão, ouviu comentários que interpretavam a situação como um privilégio concedido ao padre.

Pe. Rodrigo explicou:

“Não, o padre não tem prioridade em coisa nenhuma. Eu tenho outra prioridade. Enfrentar essa invalidação é terrível.”

A situação exemplifica como a falta de compreensão sobre o autismo pode produzir novas barreiras para quem precisa ter suas necessidades reconhecidas.

O “espectrocídio” como forma de violência simbólica

Em sua reflexão, Kátia Diniz apresenta o conceito de “espectrocídio”, criado em 2024 pelo pesquisador Rodrigo Freitas, da Universidade Metodista de São Paulo.

Segundo a pesquisadora, o termo busca nomear diferentes formas de violência simbólica que atravessam os corpos de pessoas autistas.

O conceito trata, nessa perspectiva, de uma tentativa sistêmica de apagamento, silenciamento e correção da subjetividade autística. Isso pode ocorrer quando instituições de poder tentam moldar a maneira como a pessoa autista deve se expressar ou agir.

Entre essas instituições, Kátia Diniz inclui as instituições religiosas.

O que é o “espectrocídio religioso”?

A partir do conceito de espectrocídio, Kátia Diniz apresenta a possibilidade do “espectrocídio religioso”.

Segundo sua análise, ele pode ocorrer quando práticas e narrativas religiosas estabelecem uma ideia de espiritualidade normativa e fazem com que a pessoa autista precise negar sua neurodivergência para permanecer em determinado grupo.

Em situações mais extremas, características autísticas podem receber interpretações místicas ou demonizadas.

Nesse contexto, o autismo pode ser tratado como algo que precisa ser curado por meio da fé.

Para Kátia Diniz, essa situação representa uma forma grave de violência.

A pessoa autista pode ser afastada não apenas da própria comunidade, mas também da possibilidade de vivenciar sua espiritualidade de maneira saudável.

Quando a religião deixa de ser espaço de acolhimento

Kátia Diniz destaca que a espiritualidade pode ter papel importante na vida das pessoas. Ela pode oferecer suporte para enfrentar adversidades, conflitos, incertezas e crises emocionais.

Mas surge uma questão fundamental:

Como a espiritualidade pode exercer esse papel na vida de pessoas autistas se os espaços religiosos não conseguem acolhê-las?

A pergunta coloca em evidência uma contradição.

A religião pode ser uma fonte de apoio, pertencimento e significado. Mas, quando a comunidade não reconhece a neurodivergência ou interpreta suas características de maneira preconceituosa, o próprio espaço que deveria acolher pode se transformar em fonte de sofrimento.

O relato do Pe. Rodrigo ilustra essa contradição.

Mesmo sendo responsável por celebrar missas, ele descreve situações em que precisa lidar com barreiras de comunicação, dificuldades relacionadas aos estímulos do ambiente e a necessidade de justificar sua condição para ser compreendido.

O desafio de reconhecer a espiritualidade autista

Muito recentemente, pesquisadores das Ciências das Religiões passaram a se dedicar de forma mais específica à compreensão da espiritualidade autística.

Para Kátia Diniz, essa discussão é necessária porque pessoas autistas não devem ser vistas apenas a partir de suas dificuldades.

Elas também são pessoas que constroem vínculos, desenvolvem crenças, encontram significados e podem desejar participar de comunidades religiosas.

Por isso, pensar em inclusão religiosa significa reconhecer a existência dessas experiências.

Não se trata apenas de permitir que pessoas autistas frequentem os espaços sagrados.

É preciso questionar se esses espaços estão preparados para que elas possam expressar sua fé, participar das práticas religiosas e permanecer em suas comunidades sem precisar negar quem são.

A experiência do Pe. Rodrigo ajuda a mostrar que esse desafio não é abstrato.

Ele aparece no cotidiano de uma missa, na dificuldade de falar em determinado momento, na necessidade de lidar com estímulos, na forma como uma criança se comporta durante uma celebração e até na necessidade de explicar repetidamente a própria condição.

Uma pergunta que permanece

A reflexão de Kátia Diniz e os relatos do Pe. Rodrigo Trindade levam a uma pergunta que pode ser feita por qualquer comunidade religiosa:

O espaço sagrado está preparado para acolher pessoas autistas?

A resposta exige olhar não apenas para quem consegue estar presente, mas também para quem se afastou ou nunca conseguiu permanecer.

Se a espiritualidade pode ser uma fonte de suporte diante das dificuldades da vida, garantir que pessoas autistas também possam vivenciá-la passa pelo reconhecimento de suas características, pelo combate ao estigma e pela construção de espaços que não exijam que elas deixem parte de sua identidade do lado de fora.

A inclusão começa quando a existência da pessoa autista é reconhecida.

E continua quando sua presença, sua forma de comunicação, suas características e sua maneira de viver a espiritualidade também encontram espaço dentro da comunidade.


Algumas iniciativas relacionando autismo e religião

Rede Adventista de Apoio à Família Autista (RAAFA)
Iniciativa voltada ao apoio e à orientação de famílias de pessoas autistas, com conteúdos e recursos relacionados ao autismo e à inclusão:
https://somosraafa.org/#HOME

Autistic Catholics
Comunidade católica dos EUA dedicada a pessoas autistas e suas famílias, com conteúdos em inglês sobre autismo, fé e vivência na Igreja:
https://www.autisticcatholics.org/

Apoio Católico
Comunidade criada no WhatsApp, organizada em grupos com diferentes propostas, incluindo conteúdo católico diário, materiais didáticos, orações e pessoas autistas: https://chat.whatsapp.com/CSRXbSFSPiVKdZlgGugZF0


Fonte

O presente conteúdo foi amplamente adaptado para a Linguagem Simples por GRALHA, inteligência artificial criada por Marcia Ditzel Goulart, com base na notícia de G1 PB e na contribuição de Kátia Diniz – doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da UFPB e integrante do Coletivo Autista da UFPB.

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