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Crise de ansiedade pode ser combatida com estimulação elétrica no crânio, diz pesquisador da UFPB

Procedimento é indolor, sem medicação, não gera choque e nem é invasivo
publicado: 24/12/2019 12h00, última modificação: 24/01/2020 19h40
Ação "motiva" área do cérebro a funcionar corretamente. Crédito: Divulgação

Ação "motiva" área do cérebro a funcionar corretamente. Crédito: Divulgação

"Crises de ansiedade podem ser combatidas com estimulações elétricas no crânio". A afirmação é do pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Gleiciano Sousa, em sua dissertação “Efeitos da Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) nos Sintomas de Ansiedade Social”. O trabalho tem orientação da professora Melyssa Kellyane Cavalcanti Galdino e foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Neurociência e Comportamento (PPGNeC) da UFPB.

De acordo com o pesquisador Gleiciano Sousa, o procedimento não necessita de medicação, é realizado sem dor, não dá choque e nem é invasivo para os pacientes.

 “Utilizamos dois eletrodos, um cátodo posicionado mais ou menos no lado direito da testa e um ânodo no ombro esquerdo. Uma corrente de 2mA passará entre os dois eletrodos promovendo neuroplasticidade, que é a aptidão de os neurônios criarem ou desfazerem conexões”, explica.

O intuito do experimento é fazer com que haja uma regulação entre a potência da corrente elétrica e o sistema nervoso do paciente. Com a estimulação no crânio, que promove plasticidade superficialmente na parte externa, ocorrem mudanças na região e, consequentemente, nas emoções do indivíduo.

“O mecanismo é regulado em conjunto por dois processos, o LTP (potenciação de longo prazo) e o LTD (depressão de longo prazo). O primeiro promove a criação de sinapses (a habilidade dos neurônios para criar ou desfazer conexões) e o segundo as desfaz. Quando um está mais ativo que o outro, gera um problema”, ressalta Gleiciano.

Para que a fobia social seja controlada, o pesquisador argumenta que realizou estudos sobre o circuito neural dos transtornos e aí descobriu o circuito disfuncional da ansiedade.

“O que fizemos foi basicamente ‘motivar’ a área superficial a funcionar corretamente, para que isso possa ter efeito mais profundo nas estruturas que ‘conversam’ com ela”, enfatiza. 

Ansiedade social

O censo americano National Comorbity Survey e estudos mostram que a prevalência da ansiedade social nos EUA varia entre 12% e 13%, afetando mais as mulheres com 14,2% em comparação com os 11,8% dos homens. A fobia social perde apenas para a depressão e fobias específicas.

Estudos feitos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2018, anunciaram que o Brasil era o país mais ansioso do mundo. Esses dados mostraram que o país possuía 9,3% de prevalência de transtornos ansiosos, incluindo ansiedade generalizada, pânico, agorafobia, ansiedade social e fobias específicas.

Gleiciano Sousa revela que, no Brasil, as pessoas com maior necessidade de tratamento de ansiedade social são as menos propensas a recebê-lo.

“Um possível argumento para isso é que indivíduos com múltiplos medos sociais podem ter maior probabilidade de ver os sintomas de ansiedade social como partes intratáveis de sua personalidade, ou seja, timidez ou introversão”, acentua.

 O pesquisar acredita ainda que há "uma negligência por parte dos próprios pacientes como também dos familiares, quando mencionam, por exemplo, ‘mas eu também sou tímido e consegui apresentar meus trabalhos (ou fazer amigos ou falar em público)".  

Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua

A ETCC utilizada no trabalho de Gleiciano Sousa teve seu início nos anos 2000, com os estudos dos neurocientistas Nitsche e Paulus na Alemanha. Desde então, já foram realizadas 18 mil sessões de estimulação elétrica de baixa intensidade em aproximadamente oito mil pessoas.

Gleiciano Sousa explica que a estimulação promove a plasticidade apenas superficialmente no córtex, mas é o bastante para ocorrer mudanças em distintos lugares da região cerebral.

 “Se uma área do cérebro regula outra mais profunda e a primeira está funcionando de forma defeituosa ou disfuncional (seja ativando mais ou menos do que deveria), ela vai regular erroneamente a estrutura que está lá dentro do cérebro e vice-versa”, revela.

O efeito terapêutico da ETCC também tem se demonstrado eficaz no tratamento da fibromialgia, da depressão e do vício em álcool, cigarro e outras drogas.

Jonas Lucas Vieira | Ascom/UFPB