Professora da UFPB ganha primeiro lugar estadual no Prêmio Educador Transformador
Elisabete Agra apresentou projeto para desenvolver pensamento crítico nos estudantes por meio da literatura

A professora Elisabete Borges Agra, docente do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT) no Colégio Agrícola Vidal de Negreiros (CAVN), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), foi premiada com o 1º lugar estadual no Prêmio Educador Transformador, no eixo Inovação Pedagógica e Metodologias Ativas. O resultado oficial foi divulgado no último dia 16.
A iniciativa que recebeu o reconhecimento foi o projeto “Por uma metodologia alteritária de análise literária: uma recusa do sujeito como mola interpretativa”, desenvolvido pela docente junto a seus alunos na UFPB. Como Elisabete explica na entrevista abaixo, a ideia da ação é desenvolver senso crítico nos estudantes por meio da análise de textos literários.
O prêmio Educador Transformador, iniciativa do Instituto Significare, da Bett Brasil e do Sebrae, é direcionado a professores e gestores de instituições de ensino públicas e privadas que buscam inovar na educação. Com o prêmio, a docente da UFPB representará a Paraíba na etapa nacional da premiação, integrando a rede nacional de educadores transformadores e concorrendo às próximas fases do prêmio.
Saiba mais agora sobre o projeto premiado e desenvolvido por Elisabete Agra.
UFPB: Do que se trata o projeto?
Elisabete Agra (EA): O projeto “Por uma metodologia alteritária de análise literária: uma recusa do sujeito como mola interpretativa” propõe uma abordagem inovadora para o ensino e a análise de textos literários. Sua essência está no deslocamento do foco interpretativo: em vez de partir da subjetividade do leitor (“o que o texto me diz?”), a metodologia parte da alteridade do próprio texto, ou seja, trata a obra literária como um espaço autônomo, rico em signos, silêncios, tensões e marcas ideológicas que devem ser desvelados pelo leitor. A palavra “alteritária” remete justamente a esse respeito à alteridade (a “outridade”) do texto, que não deve ser reduzido à experiência pessoal do estudante, mas sim compreendido em sua complexidade estética e histórica.
UFPB: Como ele contribui para a transformação social na área de inovação pedagógica?
EA: A proposta rompe com práticas tradicionais que limitam a análise literária à expressão subjetiva (“gostei/não gostei”) ou à busca por uma “mensagem única”. Ao formar leitores capazes de dialogar criticamente com a materialidade do texto, identificando suas contradições, silêncios e posicionamentos ideológicos, o projeto contribui para:
Desenvolver pensamento crítico e autonomia intelectual nos estudantes;
Democratizar o acesso à literatura de forma rigorosa, sem simplificações ou elitismos;
Formar cidadãos mais atentos às narrativas que circulam na sociedade, incluindo as manipulações discursivas;
Inspirar outros educadores a repensarem suas práticas, valorizando a complexidade dos textos em vez de domesticá-los para o consumo imediato. Assim, a inovação pedagógica aqui não é técnica, mas ética e política: trata-se de devolver à literatura seu potencial transformador.
UFPB: Há quanto tempo ele é desenvolvido?
EA: A metodologia vem sendo construída desde 2003/2004, quando iniciei minha atuação docente na rede estadual da Paraíba. Ao longo de mais de 20 anos de prática e reflexão contínuas, primeiro na educação básica, passando pela formação de docentes no curso de Letras em Guarabira pela UEPB e, posteriormente, como professora EBTT da UFPB, essa abordagem amadureceu teoricamente e foi testada em diferentes contextos de sala de aula, consolidando-se agora como projeto estruturado de inovação pedagógica.
UFPB: Como o projeto se relaciona à sua trajetória acadêmica?
EA: O projeto é o desdobramento natural de minha trajetória como professora e pesquisadora. Formada em Letras e doutora em Literatura e Interculturalidade, atuo há duas décadas com Língua Materna e Literatura. Primeiro na rede pública estadual e hoje como professora titular da UFPB/CCHSA (Campus Bananeiras), sempre busquei superar a dicotomia entre teoria e prática. Minha experiência anterior no concurso Viagem Nestlé pela Literatura (classificação na Paraíba) já revelava meu compromisso com metodologias que tornam a literatura viva e acessível. Agora, como docente EBTT, o projeto sintetiza minha pesquisa acadêmica e minha atuação em sala de aula, propondo uma ponte entre o rigor teórico das análises literárias e o engajamento efetivo dos estudantes, especialmente em contextos do interior nordestino, onde atuo há anos. É, portanto, a materialização de um percurso que une docência, pesquisa e transformação social.
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Texto: Hugo Bispo
Foto: Acervo Pessoal/Elizabete Agra