Da extensão à premiação internacional: Clarinetista da UFPB vence Prêmio Carlos Céspedes, na Argentina
Competição que reuniu clarinetistas de vários países da América Latina

Aos 12 anos, Eduardo Lima pisou pela primeira vez na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) para iniciar seus estudos em música, em um projeto de extensão. Quase duas décadas depois, o agora técnico-administrativo músico da UFPB, clarinetista da Orquestra Sinfônica da universidade (OSUFPB) tem sua trajetória marcada por um reconhecimento internacional: a conquista do 2º Prêmio Carlos Céspedes, no último dia 5, em uma competição que reuniu clarinetistas de diversos países e contou com jurados entre os mais renomados músicos do continente.
A premiação ocorreu dentro da programação do 3º Festival Ross, realizado em Buenos Aires (Argentina) na Universidade Nacional das Artes. O evento é uma homenagem a um destacado músico argentino e referência histórica do clarinete na América Latina. Já a premiação leva o nome de Carlos Céspedes, clarinetista da Orquestra do Teatro Colón, uma das mais importantes do mundo, falecido em 2024.
Para conquistar o prêmio, Eduardo passou por um processo seletivo rigoroso, composto por três etapas eliminatórias, enfrentando 17 competidores do Chile, Colômbia, Uruguai, Argentina, Bolívia e Peru, sendo o único representante brasileiro na disputa. A cada etapa, os candidatos eram avaliados às cegas e apenas os mais bem pontuados seguiam, dos 17 concorrentes iniciais, apenas seis alcançaram o nível técnico considerado suficiente.
“A gente teve que tocar dois concertos, um concerto de Mozart e um concerto de Karl Maria von Weber, outro compositor alemão bem importante para o instrumento. Além das três peças para Clarinete Solo de Igor Stravinsky, obra de alta complexidade técnica, que inclusive foi a primeira das peças executadas. Ela é dividida em três partes, e a cada parte que nós executávamos, a banca poderia eliminar imediatamente”, explicou o clarinetista.
A final da competição foi um recital aberto ao público no auditório principal da Universidade das Artes de Buenos Aires, da qual participaram os 3 melhores músicos da competição, sendo Eduardo Lima reconhecido com a primeira colocação, por unanimidade da banca formada por proeminentes clarinetistas da história do instrumento na América do Sul: Mariano Rey (Orquestra Filarmônica de Buenos Aires), Valdemar Rodrigues (Orquestra Sinfônica Simon Bolivar), Cristiano Alves (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Kathya Galleguillos (Universidade Mayor de Santiago) e David Medina (Orquestra Sinfônica Nacional do Chile).
Eduardo Lima considera que participar da competição é uma medição importante para avaliação do trabalho e oportunidade de aprimoramento profissional, além de refletir sua trajetória de formação dentro da UFPB.
“Na competição há uma pressão muito grande, um nível de estresse muito alto, então é um teste muito bom para as próprias habilidades, e ter a chance de tocar para esses clarinetistas que são lendas no nosso continente, ter o feedback deles, e ganhar, significa que todo trabalho está sendo feito na direção correta. E esse trabalho vem muito de uma base forte que eu tive na própria UFPB, minha história com a UFPB começa com 12 anos de idade, em 2007, quando eu entrei no curso de extensão universitária com o professor Arimatéia Veríssimo, do Departamento de Música”, explicou Eduardo Lima.

Eduardo fez a graduação, mestrado e atualmente cursa o doutorado na UFPB, apesar de experiências de aperfeiçoamento no Brasil e na Europa, Eduardo ressalta que sua formação teve como base central a universidade paraibana. Segundo o músico, essa “espinha dorsal” foi determinante para o desenvolvimento técnico que o levou ao reconhecimento internacional.
A conquista do prêmio, conforme ressalta, evidencia a solidez da formação oferecida pela universidade, mesmo quando comparada a instituições tradicionais de outros países e do próprio continente. Para Eduardo, o resultado tem um significado ainda maior por se tratar de uma universidade do Nordeste brasileiro, região que, embora frequentemente enfrente limitações estruturais em relação a grandes centros do Sudeste, demonstra capacidade de produzir excelência artística em nível internacional.
Além do reconhecimento simbólico, a premiação incluiu a entrega de um clarinete profissional de luthier, construído artesanalmente pelo próprio Ross, músico homenageado pelo festival que é considerado um dos mais respeitados construtores de clarinetes da atualidade.
Como parte do prêmio, Eduardo também foi convidado a se apresentar como recitalista no concerto de encerramento do festival, realizado no Salão Dourado do Ministério da Cultura da Cidade de Buenos Aires, um edifício histórico com mais de 200 anos. A apresentação marcou o encerramento do Festival Ross e consolidou a participação do músico da UFPB entre os destaques da edição.
Clarinete e a OSUFPB
Ao comentar sobre o clarinete, Eduardo destaca a forte presença do instrumento na cultura musical brasileira, especialmente nas bandas filarmônicas, tradição herdada do período colonial e profundamente enraizada no interior do país. O clarinete transita com naturalidade entre a música de concerto e a música popular, com atuação marcante em gêneros como o choro e o samba, o que contribuiu para sua ampla difusão no Brasil.
Na Orquestra Sinfônica da UFPB, o instrumento ocupa papel de destaque no repertório, tanto em obras orquestrais quanto como solista, função que Eduardo já exerceu diversas vezes. Para ele, no entanto, o aspecto mais relevante de sua atuação está na integração com os estudantes, uma vez que a OSUFPB está inserida em um ambiente universitário e funciona como espaço de formação prática para alunos da graduação e de projetos de extensão.
“Eu como técnico eu consigo atuar como elo entre o que o aluno aprende com o professor na sala de aula e como é a prática profissional. Então a gente faz esse trabalho quase de monitoria, e toda essa minha formação eu tento transmitir para os alunos. É uma maneira de contribuir também de volta e exercer também o papel de instituição de ensino”, disse o músico.
Nesse sentido, o clarinetista destaca a importância de, sempre que possível, fortalecer o quadro da OSUFPB para que o corpo técnico possa ampliar a contribuição da orquestra como espaço de ensino, prática profissional e formação artística.
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Texto: Elidiane Poquiviqui
Foto: Arquivo de Eduardo Lima