Projeto liderado por professor da UFPB é aprovado em chamada nacional do SinBiose

Iniciativa integra sociobiodiversidade, biodiversidade e carbono azul e reúne pesquisadores do Brasil e do exterior

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
atualizado em segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
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A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) teve um projeto aprovado na chamada pública do Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose), do CNPq, uma das mais competitivas iniciativas nacionais voltadas à produção de conhecimento estratégico para a conservação ambiental e o enfrentamento das mudanças climáticas. A proposta “Conectando Sociobiodiversidade, Biodiversidade e Carbono Azul” foi submetida e aprovada em nome da instituição pelo professor Pablo Riul, do Departamento de Sistemática e Ecologia (DSE/UFPB).

A UFPB está entre as poucas instituições selecionadas na chamada, que recebeu 157 propostas, sendo 146 de síntese de conhecimento, das quais apenas oito foram aprovadas, e 11 de comunicação científica, com um único projeto selecionado. Ao todo, a demanda envolveu 2.347 integrantes de equipes vinculadas a 91 instituições proponentes, distribuídas em 23 das 27 unidades da federação.

O projeto liderado pelo professor Pablo Riul contará com financiamento de R$ 696.400,00, com execução ao longo de 36 meses, com apoio do CNPq e do Ministério do Meio Ambiente (MMA). A equipe reúne 22 pesquisadores de 14 instituições brasileiras (FURG, MMA, UERJ, UFBA, UFES, UFC, UFPA, UFPB, UFPR, UFRGS, UFSC, UNESP, UPE, USP) e duas estrangeiras (Smithsonian Environmental Research Center – EUA, e Trinity College Dublin -Irlanda), atendendo aos critérios do edital, que exigia diversidade de gênero, faixas etárias e regiões de atuação.

Para o docente, a aprovação reforça o papel da Universidade em um cenário altamente competitivo. “Coloca a UFPB e a Paraíba em uma posição de destaque dentro de um conjunto bastante seleto de instituições que conseguiram aprovação no referido edital. Foram mais de 150 propostas, envolvendo mais de dois mil pesquisadores, e apenas nove projetos aprovados”, destaca. Segundo ele, o resultado é ainda mais expressivo diante das desigualdades estruturais entre as instituições. “Apesar das nossas limitações para competir com grandes universidades, conseguimos nos destacar e mostrar a relevância do trabalho que desenvolvemos”, acrescenta.

A proposta tem como foco os ecossistemas de carbono azul (manguezais, marismas e pradarias de gramas marinhas) ambientes costeiros capazes de armazenar grandes quantidades de carbono. “A iniciativa preenche lacunas críticas de conhecimento sobre esses ecossistemas, que armazenam mais carbono por área do que muitas florestas terrestres e estão sujeitos a pressões antrópicas associadas à urbanização costeira. Esses ambientes concentram cerca de metade do carbono sequestrado nos sedimentos marinhos, apesar de ocuparem uma fração muito reduzida da área oceânica do planeta”, explica o professor.

A proposta consiste numa síntese do conhecimento existente, incluindo a coleta, organização e análise de informações dispersas sobre sociobiodiversidade, biodiversidade e carbono nesses ecossistemas ao longo da costa brasileira. A partir desse esforço, serão produzidos mapas, análises, cenários e relatórios técnicos, além do primeiro inventário nacional de emissões associadas à degradação dos ecossistemas de carbono azul, contribuindo diretamente para as metas climáticas do país. Todo o material será reunido em um relatório acessível a gestores públicos, pesquisadores e à sociedade.

O SinBiose tem como objetivo central a criação de uma estrutura nacional de pesquisa baseada na síntese científica, alinhada a modelos internacionais.

Nesse contexto, o projeto dá destaque ao papel das populações tradicionais na conservação ambiental.“Essas populações exploram os ecossistemas de maneira sustentável. Em muitos estudos, há evidências de que territórios ocupados por povos tradicionais apresentam altos níveis de conservação ambiental, frequentemente comparáveis ou superiores aos observados em unidades de conservação”, afirma.

Segundo o pesquisador, na Paraíba, essa relação é particularmente evidente. “O estado possui extensas áreas de manguezais, e o caranguejo é um elemento central da cultura, do cotidiano, da economia e da subsistência dessas populações. Saber quem são os atores, quais são os usos e como essas comunidades interagem com a biodiversidade é fundamental”, ressalta.

O professor também destaca que o projeto amplia um trabalho desenvolvido por ele e uma parte menor do grupo há mais de dez anos, inicialmente focado na quantificação de estoques de carbono em manguezais. “Agora conseguiremos expandir essa abordagem para outros ecossistemas igualmente importantes, como as pradarias de gramas marinhas e as marismas, que muitas vezes permanecem invisíveis por estarem submersas ou serem vistas apenas como ‘mato’”, explica.

Além da produção científica, a expectativa é que os resultados subsidiem políticas públicas em nível nacional, estadual e municipal. “A ideia é reunir toda a informação disponível e disponibilizá-la para os tomadores de decisão. Quando o meio ambiente é destruído, as pessoas também perdem seus costumes e sua cultura. Com informações integradas, qualquer tomada de decisão pode ser melhor fundamentada”, conclui.

O projeto fortalece a interface ciência-política, alinhado a compromissos como as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e políticas como ProManguezal, contribuindo para metas climáticas nacionais e proteção costeira.

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Texto: Elidiane Poquiviqui
Foto: Acervo Pablo Riul