Laiza Monteiro e a luta pela visibilidade do povo indígena
Conheça a estudante da UFPB que carrega a força das mulheres potiguara da Paraíba

Mal chegou para a rápida entrevista que tínhamos agendado no campus de Mamanguape, a tímida Laiza Monteiro, estudante do curso de Letras Português, se pôs pronta para a conversa, usando um poderoso cocar. Um item que, lembrou ela, não é um simples adereço, mas uma forma de se conectar com a sua espiritualidade, com sua ancestralidade, origem exibida na camiseta onde se lia “potiguara”. O cocar, a camiseta e os brincos de pena que usava eram peças produzidas na comunidade onde vive, no município de Marcação, litoral norte da Paraíba.
Era dessa comunidade, a aldeia Jacaré de César, que ela saía todos os dias, na companhia do pai, para o campus de Mamanguape, onde está localizado curso, iniciado no ano de 2021. Mas no segundo semestre da faculdade, Laiza enfrentou a dor da morte do pai e um desafio: permanecer na UFPB, na licenciatura que escolheu e pela qual se encantou com o passar do tempo. Na ausência do pai para levá-la ao campus, mudou-se para Rio Tinto, onde se beneficiou de um auxílio-moradia concedido pela universidade, mais tarde substituído por outro auxílio, a bolsa-permanência, incentivo destinado aos povos indígenas e quilombolas.

A mesma Laiza que havia chegado à entrevista visivelmente tímida e talvez intimidada pela iminente captura de imagens estáticas e de vídeo, rapidamente revelou segurança e maturidade ao falar de seu propósito na Universidade Federal da Paraíba. Um objetivo que é mais coletivo que individual, uma responsabilidade que ela abraçou: amplificar a voz dos indígenas e fortalecer a cultura potiguara. “Hoje eu faço parte de vários coletivos, de vários grupos de pesquisa. Isso é muito fruto da UFPB, de me possibilitar adentrar em espaços que eu não tinha acesso dentro da minha comunidade. Então a partir disso a gente consegue construir conhecimento para que a gente possa lutar pelo nosso povo”.
A estudante encontrou na UFPB não só um curso superior, mas uma causa. Participou ativamente de atividades de pesquisa, iniciação à docência e extensão – entre elas o Programa de Educação Tutorial PET Indígena – e se dedicou a compreender melhor a língua de seu povo, o tupi. “Apesar de ser um curso de Letras/Português, o curso me possibilitou ter conhecimento para estudar sobre uma língua que estamos nesse movimento de retomada, o tupi antigo, que hoje já podemos chamar de tupi potiguara”, revelou a indígena.
Laiza Monteiro, que sempre mirou na educação como um de seus principais objetivos, está no último período do curso de Letras e colará grau em breve. Transformou sua história ao longo de cinco anos de vivências na UFPB e agora espera contribuir para mudar a vida de mais meninas de sua comunidade, onde vivem cerca de 60 famílias, e de aldeias vizinhas, como professora do ensino básico, tal qual sua irmã, graduada pela mesma universidade, no campus de Rio Tinto.
A estudante alimenta o ciclo virtuoso iniciado por outras mulheres de seu povo, “mulheres potentes que já são formadas pela UFPB e por outras instituições também”, contou. Dá um passo corajoso e inspirador no desafio gigante de ampliar o acesso à educação e garantir a permanência das potiguara no ensino superior. “A minha trajetória e de outras mulheres potiguara foram mudadas através da educação, então é muito importante para mim estar aqui hoje dando essa entrevista, porque é um jeito de não só eu estar aqui, é dar voz a outras pessoas também”, finalizou Laiza.

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Texto e Foto: Milena Dantas
GCI/SCS/UFPB