Maria Eduarda e o sonho de contar histórias que o mundo precisa ouvir

Conheça a estudante que acredita no poder do jornalismo para mostrar as pessoas com deficiência para além dos estereótipos

segunda-feira, 16 de março de 2026
atualizado em segunda-feira, 16 de março de 2026

Maria Eduarda da Silva gosta de contar histórias. Desde pequena, encontrou nas palavras um lugar seguro escrevendo poemas e inventando personagens. Hoje, aos 23 anos, no quarto período do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela continua movida pela mesma vontade: contar histórias que merecem ser ouvidas.

Nascida em Santa Rita, na Paraíba, Maria Eduarda passou boa parte da vida no Rio de Janeiro. Ainda bebê, após receber o diagnóstico de paralisia cerebral, condição que afeta principalmente seu equilíbrio e coordenação motora, seus pais decidiram mudar de cidade em busca de melhores condições de tratamento, de fisioterapia e de vida.

Há cerca de seis anos, a família retornou à Paraíba. A mudança também foi uma forma de garantir uma casa adaptada, onde ela pudesse se locomover com mais autonomia.

Desde pequena Maria Eduarda tinha um objetivo claro: cursar uma faculdade. Durante muitos anos, imaginou-se na medicina, especialmente na pediatria, motivada pelo desejo de ajudar crianças. Ao mesmo tempo, escrever sempre foi um refúgio e uma paixão que a acompanhava. Ler e escrever nunca foram apenas hobbies, eram parte de quem ela era.

O caminho até a universidade, para ela, foi uma estrada um pouco mais acidentada do que para muitos colegas, marcada por desafios de acessibilidade e pela necessidade de adaptar partes do percurso. A maioria das escolas nas quais Maria Eduarda estudou não tinham acessibilidade para uma pessoa que faz uso de cadeira de rodas: em uma delas, na qual estudou do 6º ao 9º ano, por exemplo, o elevador existia, mas nunca funcionou.

“Eu passava o recreio na parte de cima, enquanto os outros alunos desciam porque se eu descesse também ficaria complicado subir. Às vezes eu me sentia sozinha, mas, a maior parte do tempo eu estava focada nos estudos, sempre levei muito a sério, mesmo sendo criança, e isso me ajudou a não ficar tão mal pela situação”, contou a estudante.

O jornalismo apareceu inicialmente como uma alternativa caso a medicina não acontecesse. Mas, ao chegar à universidade, Maria Eduarda descobriu que aquele caminho também poderia ser profundamente seu.

“No começo eu não conhecia muito o curso, só aquilo que a gente vê nos jornais e na TV. Eu tinha medo de não sentir pelo jornalismo o mesmo entusiasmo que sentia pela medicina, eu nunca quis fazer um curso só porque era a única opção que restou, mas o tempo passou e eu fui me apaixonando pela área e me vendo cada vez mais como uma futura jornalista”, conta.

Apesar da timidez, que no início parecia um obstáculo em uma profissão da comunicação, Maria Eduarda foi encontrando seu espaço. Com o tempo, a sala de aula se tornou também um lugar de aprendizado pessoal e hoje a timidez já não é um obstáculo tão grande.

“O jornalismo tem muitos debates e isso me ajudou a aprender a me expressar e a falar o que penso, em muitos momentos tenho medo de falar o que penso quando estou cercada por pessoas que não conheço direito, mas o jornalismo é um curso onde há muitos debates e isto faz com que eu me expresse”, afirma.

Como mulher bissexual e pessoa com deficiência, Maria Eduarda também entende, na própria experiência, como muitas histórias são contadas de forma limitada, sob um olhar estereotipado e reducionista, e é justamente isso que ela deseja transformar como futura jornalista.

“Posso mudar isso e mostrar as pessoas muito além da deficiência delas, as enaltecendo por seu trabalho, por exemplo, e com isto mostrar para as crianças com deficiência que, apesar das dificuldades, elas podem ser o que quiserem”.

Ela sonha especialmente com um formato: o livro-reportagem. Histórias profundas, narrativas longas, personagens reais. Histórias que merecem ser contadas com tempo e sensibilidade. “Dar visibilidade às histórias das pessoas é algo que me entusiasma muito.” Outro desejo é realizar uma reportagem internacional.

E, como jornalista em formação, a estudante reconhece na UFPB avanços importantes, como a instalação de elevadores no bloco em que estuda. Ainda assim, ela acredita que ainda há avanços a serem feitos para tornar o campus mais acessível no cotidiano. Entre os exemplos, cita os paralelepípedos presentes em diversas áreas da universidade, que podem prender as rodas da cadeira e tornar a locomoção mais difícil.

Maria Eduarda também destaca o papel fundamental das pessoas que caminham ao seu lado nessa trajetória. A mãe é seu principal apoio e a acompanha diariamente na rotina da universidade. “Ela vem comigo para a faculdade e me ajuda em tudo que preciso. Também é por ela que quero me formar, para dar a ela uma vida melhor”, conta.

Na sala de aula, outro apoio importante é o colega Fábio, da mesma turma, que está sempre disposto a ajudá-la nas atividades do dia a dia. “Sou muito grata a ele por isso”, diz.

Ela também guarda com carinho um gesto de acolhimento vivido na universidade. Ao contar à professora de Jornalismo Suelly Maux que não poderia participar de um passeio da turma por não ter dinheiro para a passagem de volta, a docente conseguiu disponibilizar um carro da própria universidade para levá-la.

“Talvez para ela tenha sido uma atitude simples, mas eu sempre vou lembrar daquele dia com muita gratidão e carinho. Na minha vida, muitas vezes as pessoas não se esforçavam para que eu realmente participasse das coisas. Ver esse esforço dela me comoveu muito”, recorda.

Enquanto constrói seu caminho pelo jornalismo, Maria Eduarda encontra alegria nas pequenas coisas do cotidiano: ouvir música (especialmente pop latino), escrever poemas, assistir a filmes românticos em dias de chuva e aproveitar momentos simples.

E para meninas e mulheres, especialmente aquelas com deficiência que sonham em chegar à universidade, Maria Eduarda deixa um conselho direto.

“Não desistam, apesar dos obstáculos. Muitas vezes a vida parece uma luta constante para conseguir o básico. Mas espero que os sonhos de vocês sejam o combustível para continuar, assim como os meus são para mim”, afirma a estudante.

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Texto: Elidiane Poquiviqui
Foto: Angélica Gouveia e Arquivo pessoal