Conheça um pouco mais Glória Rabay: uma vida dedicada ao conhecimento e à luta por direitos
Docente construiu trajetória em que pesquisa, militância e vida pessoal caminham juntas

Glória de Lourdes Freire Rabay, ou simplesmente Glória Rabay, nasceu em uma família simples, onde o dinheiro era contado, mas a educação era inegociável. Filha de pais sem formação universitária, cresceu vendo o trabalho ocupar praticamente todos os dias da semana. Sua casa era também uma oficina, ateliê e cozinha. Quando fala da própria história, não começa pelos títulos acadêmicos, livros publicados ou pelas décadas dedicadas ao ensino superior; prefere voltar à infância.
“Eu nasci numa família empobrecida. Meus pais não tiveram formação superior, embora fossem pessoas cultas, educadas, que gostavam muito de ler. Papai foi músico, ganhou um pouco da vida como músico, tocava piano muito bem, desenhava lindamente, mas ele foi um faz-tudo, né? Minha mãe pintava também, fizeram de tudo um pouco. Eles trabalhavam com costura, costurando uniformes, produzindo bolo e fazendo artesanato”, conta a professora do departamento de Jornalismo da UFPB.
Apesar das dificuldades, Glória diz que havia espaço para brincadeiras na rua e quintais cheios. “É uma família grande, somos duas mulheres e quatro homens, mas eu posso dizer que foi uma infância feliz, sem luxo, com algumas privações, mas na minha época as crianças brincavam na rua e se divertiam muito”.
Mais do que qualquer bem material, herdou dos pais o apreço pelo conhecimento e o compromisso com o outro, o que mudaria toda sua trajetória. Mesmo trabalhando muito para garantir o sustento da família, seus pais ainda encontravam tempo para atuar em pastorais e ações sociais da Igreja Católica. Ver esse exemplo, ensinou que solidariedade não depende de riqueza, mas de disposição para cuidar das pessoas.
Ainda muito jovem, Glória começou a perceber que havia diferenças entre ser menino e menina em casa. Os irmãos tinham liberdades que ela não possuía. Os questionamentos sobre essas desigualdades surgiram antes mesmo de conhecer o feminismo. Foi esse incômodo, ainda adolescente, que a levou a buscar outros espaços de participação social, a exemplo do movimento Fala Jaguaribe, espaço voltado para reivindicações de melhorias para o bairro.
Em 1979, ingressou no curso de Jornalismo na UFPB e se envolveu com o movimento estudantil, participou de mobilizações e greves e tornou-se a primeira presidenta do Centro Acadêmico Vladimir Herzog, fundado após a ditadura militar. Para ela, o movimento estudantil foi sua “segunda universidade” e acredita que todos os estudantes deveriam se envolver.
Ainda durante a graduação, Glória Rabay iniciou pesquisas sobre violência doméstica e mulheres no mundo do trabalho. Assim,o sonho juvenil de ser uma repórter internacional foi aos poucos dando lugar à paixão pela investigação científica. Ao concluir o curso ingressou diretamente no mestrado, gerando uma carreira acadêmica de forma quase natural.
Com apenas 24 anos, assumiu sua primeira sala de aula como professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). A aparência jovem fazia muitos alunos acreditarem que sua presença era um trote. Frequentemente, o coordenador do curso precisava apresentá-la oficialmente antes do início das aulas. O tempo transformaria aquela jovem professora em uma das principais referências nas áreas de gênero, feminismo e direitos humanos. O feminismo deixou de ser apenas uma causa e tornou-se um projeto de vida
Fundadora do Centro da Mulher 8 de Março, em 1992, participou de projetos voltados para mulheres encarceradas, trabalhadoras rurais, adolescentes e vítimas de violência. Ao longo das décadas, produziu pesquisas sobre participação política feminina, violência de gênero, feminicídio, direitos humanos e democracia, sempre aproximando universidade e sociedade.
Durante muito tempo, viveu sua orientação sexual com discrição no ambiente universitário. Um episódio de lesbofobia, ocorrido em uma atividade na creche da universidade, transformou essa postura.
“Eu só passei, abertamente, um episódio de lesbofobia, que foi na creche da universidade, em uma festa de Natal, há mais de dez anos. O microfone foi dado a um pastor que olhava para mim e para minha companheira e dizia para a plateia, que a única família aceita por Deus era a família que seguia o modelo da família de Jesus. Ou seja, o pai, a mãe e os filhos. Foi um episódio muito marcante na minha vida, porque apesar de eu não me esconder, foi a primeira vez que eu subi no palanque, gritei na plateia que não admitia que ele julgasse e que dissesse que minha família não era de Deus, especialmente na frente da minha filha, que na época era uma criança, tinha só cinco anos. Então, isso foi um episódio muito marcante vivido dentro da universidade”, relata.
Depois daquele dia, Glória decidiu que nunca mais esconderia quem era. Passou a mencionar naturalmente sua companheira em sala de aula, não como ato de enfrentamento permanente, mas como forma de afirmar que nenhuma identidade deve ser tratada como motivo de vergonha. Para ela, a defesa dos direitos humanos também passa pelo exemplo.
Mesmo após décadas de docência, pesquisa e extensão, Glória Rabay continua fazendo planos. Quer realizar um pós-doutorado, concluir livros iniciados, aprofundar pesquisas, dedicar mais tempo ao movimento feminista e levar adiante um hobby recente: a pintura, com o plano de realizar uma exposição.
Para Glória, viver é sobretudo transformar conhecimento em compromisso com a vida e com o cuidado com o outro. “A militância está sempre presente e me acompanha, porque é a forma que tenho de retribuir tudo o que eu já recebi da vida. Espero ainda poder contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária, em que a violência não mate as pessoas só porque elas são diferentes.”
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Texto: Saulo Levy
Imagem: Arquivo pessoal