Para permanecer e pertencer: estudantes com deficiência compartilham vivências na UFPB 

No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, estudante e egresso da UFPB falam sobre barreiras, inclusão e o direito de participar plenamente da vida universitária

segunda-feira, 21 de setembro de 2026
atualizado em segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Um pequeno desnível na entrada de uma sala pode passar despercebido pela maioria das pessoas. Para Camila Carla, estudante do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ele pode tornar mais difícil uma ação cotidiana: entrar no ambiente onde terá aula usando uma cadeira de rodas.

A ausência de elevadores em alguns espaços e os pisos quebrados estão entre outras barreiras físicas encontradas pela jovem de 21 anos durante seus deslocamentos pelo campus. Nesses percursos, ela conta com duas estudantes apoiadoras do Comitê de Inclusão e Acessibilidade (CIA), em uma convivência que já é de amizade.

“Poder estudar, permanecer e pertencer à Universidade significa ter a oportunidade de circular, participar, fazer amizades, desenvolver projetos e contribuir. Isso só é possível em um ambiente pensado para todas as pessoas”, afirmou Camila.

Celebrado em 21 de setembro, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência chama a atenção para a defesa de direitos, a inclusão e o enfrentamento às diferentes formas de discriminação. A data também convida a comunidade universitária a perceber obstáculos que nem sempre são visíveis, mas ainda dificultam a participação plena das pessoas com deficiência. 

Na UFPB, 1.522 estudantes ativos estão registrados como pessoas com deficiência ou com outras necessidades educacionais específicas, segundo relatório de 2026 do CIA. Desse total, 426 nunca solicitaram apoio ao Comitê. A UFPB é a universidade federal com o maior número de estudantes com deficiência do país, seguida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), segundo dados do Colégio Nacional de Gestores de Núcleos de Acessibilidade das Universidades Federais (Conacessi), órgão de assessoramento da Andifes.

Além de receber acompanhamento do CIA, Camila Carla participa como extensionista do Laboratório de Acessibilidade de Arquitetura e Urbanismo (Lacesse), onde amplia seus conhecimentos e troca experiências sobre o tema. Ela reconhece os apoios encontrados durante sua trajetória, mas avalia que a Universidade ainda precisa avançar na acessibilidade física e incorporar esse cuidado ao planejamento dos espaços e às relações cotidianas.

Qual o seu papel na inclusão?

Para o coordenador do CIA, Rafael Monteiro, uma das principais dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência é a barreira atitudinal, que contribui para a permanência de obstáculos arquitetônicos, pedagógicos, comunicacionais e tecnológicos.

Essa barreira aparece, por exemplo, quando alguém evita se aproximar de uma pessoa com deficiência, duvida de sua capacidade ou não a inclui em uma atividade acadêmica.

“A barreira atitudinal gera capacitismo, falta de oportunidades e pode inviabilizar o acesso e a inclusão. Ela aparece na atitude de se afastar, de duvidar da capacidade do outro ou de fazer julgamentos a partir de um estereótipo”, explicou Rafael.

As barreiras pedagógicas marcaram parte da trajetória de Bruno Fernandes Medeiros, de 31 anos, formado em Medicina Veterinária pela UFPB em maio deste ano. Natural de Jaçanã, no Rio Grande do Norte, Bruno é amputado do membro superior esquerdo e recebeu, de forma tardia, o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Durante os 12 anos em que esteve na Universidade, ele encontrou dificuldades relacionadas ao tempo destinado às avaliações e às metodologias de ensino. Nas aulas práticas, algumas atividades exigiam adaptações. “Fazer uma sutura é algo fácil, porém, com um braço, fica mais difícil”, exemplificou.

A ampliação do tempo para realizar as provas e o acompanhamento de estudantes apoiadores foram importantes para que Bruno avançasse na graduação. Ele também destaca o apoio recebido de professores, estudantes e servidores durante as aulas e os estágios.

Para o médico-veterinário, a Universidade pode avançar com a capacitação de docentes, técnicos e estudantes, além de oferecer suporte pedagógico aos professores. Ele também chama a atenção para situações cotidianas que podem provocar o isolamento de estudantes.

“A comunidade universitária precisa ter mais empatia nas relações e nas atividades acadêmicas. Se os trabalhos forem em grupo ou dupla, por exemplo, o ideal seria a formação por sorteio, para evitar a segregação”, afirmou.

Ser ponte, e não barreira

Depois de uma trajetória marcada por desafios, adaptações e encontros, concluir a graduação teve um significado especial para Bruno.

“Formar-se é atingir o objetivo que nos levou a entrar na Universidade. Permanecer é sentir que fazemos parte de um todo, como membros da comunidade universitária”, disse.

O Comitê de Inclusão e Acessibilidade atua na articulação da política institucional voltada às pessoas com deficiência. Os estudantes que procuram o CIA são acolhidos e avaliados para a identificação de suas necessidades e podem ser encaminhados a uma rede formada por laboratórios, departamentos, núcleos, clínicas e outros setores da Universidade.

Para Rafael, a inclusão depende também de reconhecer as capacidades, os conhecimentos e as contribuições das pessoas com deficiência para a vida acadêmica.

“Nós não estamos aqui apenas para receber, mas também para oferecer. Precisamos compreender o que a pessoa com deficiência pode contribuir com a ciência, com a Universidade e com a sociedade, inclusive a partir de suas experiências”, afirmou.

Segundo o coordenador, a construção de uma universidade acessível exige o envolvimento de toda a comunidade: “As dificuldades existem, e nós precisamos assumir o papel de ponte, e não de barreira”.

* Matéria atualizada em 28/09/2026, às 17h05.

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Texto: Elidiane Poquiviqui
GCI/SCS/UFPB
Fotos: Marta França e Arquivo pessoal de Bruno Medeiros