Brejo do Cruz – PB, 1958
João Lobo começou a se interessar por imagens aos 20 e poucos anos de idade, na década de 1980. No início, foram pequenos trabalhos audiovisuais de caráter educativo, mas rapidamente migrou para a fotografia profissional. Inquieto e curioso, o trabalho de fotojornalismo não o satisfez. Sua vontade era ir além do fato, da imagem-notícia, da narrativa de um evento. Sua agitação pedia mais: queria experimentar, ir além do registro e, assim como os “velhos” fotógrafos do Photo-Secession, mostrar que a fotografia era sim capaz de produzir arte. Suas buscas acabaram por encontrar fotógrafos como Ernst Haas, Ansel Adams, William Klein e Marc Riboud. Eram áreas diferentes, mas todos com grande criatividade e inovação de linguagem.
Essas experiências o levaram para o meio acadêmico, onde aprofundou seu conhecimento teórico e começou a lecionar para que seu trabalho não fosse tão solitário como se apresentava. O fotógrafo levou seus trabalhos para diversos países, como Portugal, Argentina, Espanha, França, Holanda e Chile. Além de levar conhecimento, nessas viagens iniciou um intercâmbio com diversos fotógrafos. Numa dessas viagens conheceu as imagens de Pedro Luís Raota, umas das suas grandes influências pelo enquadramento, dramaticidade da luz e altos contrastes, em Villaguay, na Argentina. Mas outros, também entre os brasileiros, tornaram-se referência, pelo menos parte de seu museu imaginário: Klaus Mitteldorf, Renan Cepeda e Hélio Oiticica, que apesar de não ser fotógrafo realizaram trabalhos importantes usando a fotografia.
João Lobo é um experimentalista no sentido mais amplo da palavra. Trabalha com a luz, com diferentes filmes, quebrando regras de exposição e processamento, obtendo resultados que quase sempre surpreendem, e acaba produzindo imagens que causam um descondicionamento do olhar. Ele conhece muito de regras e padrões, a ponto de quebrá-los e, novamente, como qualquer cientista, ser capaz de reproduzir a experiência, obtendo os mesmos resultados, base necessária para a transmissão do conhecimento.
Já há alguns anos desenvolve projetos na área didático-cultural que envolve parte do Nordeste. Exemplificando, o que acontece em Paraty, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília, a Paraíba também tem seu festival da imagem, já há quatro anos. É idealizador do projeto “O Parahyba Digital”, que em sua terceira edição, o mostrou a necessidade deste tipo de intercâmbio. Indica a viabilidade de juntar profissionais comungando um mesmo sentimento e somando ideias que se propagaram com o tempo.
João Lobo transitando entre a prática e a teoria permitiu-se desenvolver um olhar crítico e um conhecimento da produção contemporânea, especialmente quando o assunto é arte, uma área em que muitos ainda patinam e se eximem de comentar. A sua versatilidade é demonstrada na exposição “Olho a Olho” (1998) e “Autoreverse” (2000), dando ao expectador novas perspectivas e no álbum “Corpo Alma” (2000), mostra detalhes macroscópicos do corpo humano que remetem a paisagens poéticas. Aí ele se utiliza de duas vertentes da arte. No capítulo Corpo, mostra os detalhes em fotografias tradicionais, mas de evidente beleza e singularidade plástica. No segundo, Alma, transfigura as mesmas imagens através de filtros, técnicas laboratoriais e recursos da linguagem digital, para compor um universo de tons e semitons que impressiona a mais exigente sensibilidade perceptiva.
Coerente com suas ideias e empenho na divulgação do conhecimento fotográfico, atualmente João Lobo desenvolve uma pesquisa sobre a história do nu na fotografia, mas sem deixar de lado sua produção fotográfica, como o ensaio fotográfico sobre as inscrições rupestres da Pedra do Ingá, na Paraíba.
Texto transcrito do Livro João Lobo, de autoria de Simonetta Persichetti, 2008.
[Fonte: Paraíba Criativa, 2016]

Última atualização: quarta-feira, 18 de junho de 2025